>Paraíso: Uma analogia ao inconsciente

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Já que introduzi o outro post falando de inconsciente, hoje escolhi continuar falando dele, só que vou utilizar como referência um filme (fantástico) que pode ajudar a entender um pouco mais como ele funciona e se articula. No filme “Amor além da vida” (What dreams may come, 1998) um casal vivido por Chris (Robbin Williams) e Annie (Annabela Sciorra) perde os filhos em um acidente de carro, logo no começo do filme. Infelizmente a tragédia não parou por aí, Annie perde o marido, Chris, também num acidente de carro.
Bom, a partir daí é que o filme de fato começa, e é onde, então, surge meu interesse! Ao morrer, Chris vai para uma espécie de paraíso, onde se encontra muito perdido, sem saber onde está! Eis que surge um homem (Cuba Gooding Jr.),  que vai ajudá-lo a entender sobre esse “novo mundo”.
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O paraíso, no filme, é caracterizado de uma maneira tão colorida e viva que não tem como não se encantar. Mas ele aparece assim porque, na verdade, ele é uma construção da mente de Chris, ou seja, esse colorido “vivo” é uma influência das obras de arte de sua esposa. É como se Chris estivesse dentro de uma tela de Annie! Aproveito aqui para ressaltar o quanto os efeitos especiais desse filme são esplêndidos…
Neste paraíso não existe a lógica temporal e ele é cheio de surpresas e enigmas que são desvendados por Chirs. É aí que eu chego ao ponto principal, pois tais características me permitiram fazer uma analogia ao inconsciente proposto por Freud.
Primeiro porque o inconsciente é atemporal, não existe passado, presente e nem futuro! O que existe são as pulsões que buscam a satisfação imediata, regidas pelo principio do prazer, em outras palavras, estamos sempre em busca de satisfazer nosso desejos. Mas, como não temos acesso a esses conteúdos que estão no inconsciente, apresento-lhes dois mecanismos que fazem com que esses conteúdos venham para nossa consciência, mesmo que alterados. São eles: deslocamento e condensação. Eles alteram o conteúdo latente (o que está inconsciente)  para que então ele venha para a consciência. É como nos sonhos, as vezes, acordamos e tentamos lembrar do sonho, só que muitas vezes ele não tem sentido algum! É repleto de paradoxos, contradições e incompleto. Então, na verdade, ele foi alterado, ou seja, vários conteúdos foram deslocados e condensados, para então podermos lembrar do sonho e falar sobre ele (chamamos de conteúdo manifesto). É como se tudo estivesse camuflado, encoberto, cheio de enigmas…
                                                
                          
No filme, Chris, além de se deparar com a lógica atemporal, consegue descobrir após lembrar de vários momentos de sua vida, que as pessoas que estavam lhe ajudando no paraíso eram seus filhos, mas que estavam “escondidos” em outros rostos. É como se Chris, após relembrar de vários fatos, conseguisse trazer à tona os conteúdos inconscientes e desvendasse os enigmas.
E na vida real, como trazemos à consciência esses conteúdos inconscientes? Uma única resposta: muita análise! E digo mais, o percurso não é fácil…requer muito desejo e demanda também. O filme vai muito além do que coloquei em foco aqui, o paraíso, pois ele ainda remete a temas como o suicídio e o fato de retornarmos a vida depois da morte (sugiro aqui a lei do Eterno Retorno proposta por Nietszche).
Bom, fico por aqui, agradeço os comentários e aos amigos que elogiam o blog =)
Mariana Anconi

4 thoughts on “>Paraíso: Uma analogia ao inconsciente

  1. >mari, vi o link no msn e vim dar uma olhada!gostei dos seus ecritos mocinha! =]dá pra sentir, além do conhecimento, a paixão pelo assunto.bjosAdriane Mesquita

  2. >Olá Mariana! Gostaria de parabenizá-la pela iniciativa do blog. Realmente trata de questões pertinentes dentro da análise psicológica.Bom, este texto me chamou mais a atenção. A reflexão acerca do imaginário sobre o conceito de paraíso no filme é marcante. Aliás, adequar esse conceito imaginado de "paraíso" à tese freudiana foi uma sacada sensacional. Isto porque a idéia de paraíso no filme pode ser entendida como uma simples construção imagética do próprio autor da História; do filme. Já parou pra perceber isso? Neste sentido, a idéia de paraíso pode ser associada ao inconsciente freudiano. Mais do que isso, te confesso que quando li teu artigo, lembrei de outro conceito que poderia ser estudado: o conceito de simbolismo em Lacan. Em Yung também. A partir da reflexão sobre estas idéias, poderíamos obter um paradigma maior sobre o referencial de paraíso dentro do filme.Não querendo ser chato e enfadonho, mas observei um outro ponto interessante: a própria idéia de morte dentro do filme. Ou seja, o que o cineasta está concebendo como morte? Ou, pelo menos, dentro do contexto imagético, qual o significado desta morte, que ocorre no filme, para o "paraíso"? A mentalidade da morte, no filme, parece ter um objetivo específico, que é o de, exatamente, construir um direcionamento ao paraíso.Sei lá.Veio essas coisas na mente e achei que poderia contribuir de alguma forma.Continue nessas reflexões!!abraçãoGuilherme Braga

  3. >Guilherme, adorei seu comentário! Muito pertinente. Vejo que tens um interesse no tema também não é? Então, pensei em buscar mais nos conceitos de Freud para escrever sobre o filme, mas com certeza se buscarmos na obra de Lacan também teremos boas contribuições, assim como você falou do simbolismo, o que me remete muito quando ele (Lacan) utiliza-se da linguística para enriquecer a teoria freudiana, a partir dos símbolos (significantes) que compõem o inconsciente através de uma cadeia, onde um se remete ao outro. Quanto a Jung, confesso que não sou muito fã de sua teoria, pois ele modificou muito a de Freud, mas sei que ele desenvolveu conceitos como inconsciente coletivo que inovaram a forma de entender a psique humana, através de nossos antepassados.Em relação a morte no filme, li muitas críticas a respeito disso, e muitas afirmam ser este um filme espiritualista, mas isso não se confirma de fato.Por fim, agradeço sua contribuição e espero mais outras!Abraço!!

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