Uma dose de…VER!SSIMO

Depois de uma quarta-feira no mínimo puxada, com algumas dores de cabeça, o bom é relaxar com um texto do Luis Fernando Verissimo! Segue abaixo meu presentinho pra vocês hj!

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Boca Aberta

Quando eu era pequeno, não acreditava em beijo de cinema. Achava que eles não podiam estar se beijando de verdade, nos filmes de censura livre. Aquilo era truque. Me contaram que usavam um plástico, que  a gente não via, entre uma boca e outra. Isso no tempo em que as pessoas só se beijavam de boca fechada, pelo menos no cinema americano. Não sei quem me deu esta informação. Alguém ainda mais confuso do que eu.

Bonequinha de luxo

Nos filmes proibidos até 14 anos, permanecia a ideia de que nos Estados Unidos o sexo era diferente. As pessoas de beijavam –  de boca fechada – depois desapareciam da tela, tudo escurecia e a mulher ficava grávida. Quando se via o beijo do começo ao fim, não havia perigo de a mulher engravidar. Mas quando as cabeças saíam do quadro ainda se beijando, e a tela escurecia, era fatal: vinha filho. Às vezes na cena seguinte.

...E o vento levou

Durante algum tempo, só filmes europeus eram proibidos até 18 anos. Você entrava no cinema para assistir a um filme “até 18 anos” sabendo que ia ver no mínimo um seio nu, provavelmente de Martinne Carole. Não sei quando apareceu o primeiro seio americano no cinema. Mas me lembro do primeiro beijo americano com boca aberta. Com língua e tudo. Bom, a língua não se via, a língua era presumida. Também não era beijo tipo roto-rooter, beijo de amígdala, como no cinema francês. Mas estavam lá, as bocas abertas num beijo histórico. Depois do primeiro beijo de boca aberta, foi como se abrissem uma porteira e começasse a passar de tudo. Passa língua, passa peito, passa bunda… E em pouco tempo os americanos estariam transando sem parar. Era inacreditável. Americanos na cama, sem roupa, transando como todo o mundo!

Casablanca

Mas guardei o primeiro beijo de boca aberta no cinema americano porque me lembro de ter tido um pensamento quando o vi. Com aquele misto de carinho divertido e incredulidade com que recordamos nossa infância, que aumenta quanto mais nos distanciamos dela. Me lembro de ter pensado:

– Isto destrói, definitivamente, a teoria do plástico.

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*Luis Fernando Veríssimo em “Banquete com os deuses”, da Ed. Objetiva, 2003, pág. 19.

 

Abraço!

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