Vamos falar de amor?

Corações apaixonados, frases românticas, presentes criativos, surpresas, músicas que falam de amor, jantar a dois, declarações… ahhh, esse é o clima do dia 12 de junho. Todo ano, os casais se mobilizam pelo menos 1 dia para fazerem tudo que citei acima. Parece que o amor contagia a todos, até os solteiros entram no clima, outros nem tanto, preferem fazer piadinhas, causar inveja com sua “liberdade”.

Acho digno falarmos de amor nessa data. Esse afeto que consegue transformar pessoas. Não falo em milagre, falo de algo que só o amor é capaz: possibilitar novas perspectivas, novos horizontes. É uma chance que temos também de fazer as coisas de um jeito diferente. Amor ao outro, amor próprio, amor platônico, amor distante, amor perto, amor escondido, amor não correspondido, amor que sufoca, amor que acalma e protege. São tantos…!

Os filósofos já debatiam sobre isso há muito tempo, e desde então, já criavam teorias e mais teorias a respeito desse sentimento tão nobre. Falar de amor nos remete a Eros, na mitologia grega, deus do amor. Em O banquete de Platão, temos um debate entre figuras da sociedade ateniense. De acordo com Rennée Weber,  elas fazem várias descrições de amor, todas unilaterais, embora não falsas, até chegar a vez de Sócrates. Uma das pessoas disse que o amor nos faz adotar atitudes nobres para sermos merecedores do amado. Outra afirmou que o amor é uma espécie de frenesi e loucura, e outros, como Aristófanes, classificaram-no como a busca da nossa outra metade.

Dentre essas hipóteses, a de Aristófanes me chamou muito atenção, pois para ele, haveria três tipos de humanos no  mundo, na figura homem/homem, mulher/mulher e homem/mulher. No tipo homem/mulher, seríamos uma espécie de seres andróginos, com uma metade feminina e outra masculina. E esses seres teriam feito transgressões contra os deuses e, como castigo, foram divididos ao meio. Portanto, de acordo com o mito, somos seres incompletos, e que os movimentos de amor são uma busca de complemento. De outro modo, estamos sempre em busca de nossa outra metade, perdida pelo mundo (lindo não?).

Ainda em O Banquete, Sócrates discursa sobre tal tema e conclui que o que se ama é somente aquilo que não se tem, e se alguém ama a si mesmo, ama o que não é. Para ele, o objeto de amor sempre está ausente, mas  sempre é solicitado.

“A verdade é algo que está sempre mais além: sempre que pensamos tê-la atingido, ela se nos escapa entre os dedos. Essa inquietação na origem de uma procura, visando uma paixão ou um saber, faz do amor um filósofo. Sendo o Amor, amor daquilo que falta, forçosamente não é belo nem bom, visto que necessariamente o Amor é amor do belo e do bom. Não temos como desejar aquilo que temos.”

Para a psicanálise, perdemos nosso objeto de amor muito cedo, mas em troca disso, nos tornamos seres de cultura. Nosso primeiro vínculo de amor é estabelecido com quem nos oferece proteção, cuidado e carinho. É dela mesmo de quem falo: mãe. Ou qualquer outra pessoa que ocupe essa função. Quando bebês nos vemos envolvidos nesse laço simbiótico com o outro, e sair dele, pode ser uma das coisas mais difíceis que precisamos fazer.

Amar tem íntima relação com o conceito de narcisismo. Como diz o poeta: Narciso acha feio aquilo que não é espelho. Não é só Narciso não, somos todos assim, amamos no outro aquilo que nos é familiar, igual, ou seja, amamos as coisas com as quais nos identificamos. Aquela história de que “os opostos se atraem” vale só pra física mesmo! Reparem quantas vezes vocês já ouviram casais repetirem: “Nos separamos porque somos muito diferentes”. Essa frase é a prova do quanto que não estamos preparados para enfrentar as diferenças.

Acredito que antes de mais nada podemos estabelecer diferenças entre conceitos de AMOR e PAIXÃO. Que só para constar, são bem diferentes! Os casais tem a tarefa de transformar o que é paixão em amor, desafio dos grandes. Vemos isso naqueles que estão começando a jornada de um relacioamneto, onde os defeitos do outro são apenas “peculiaridades” e que depois de tanto tempo, viram defeitos mesmo, insuportáveis até!

Amar não é dar “bom dia e boa noite” e esquecer que entre esses cumprimentos há um mundo de diferenças, que se forem acompanhadas de uma boa dose de respeito, pode-se aprender muito mais sobre o outro. Amar não é demonstrar isso somente uma vez ao ano, mas sim, todos os dias, com pequenos gestos, naturais e espontâneos.

Finalizo, com o que Freud dizia sobre o amor, que poderia ser pensado como todas as condutas que, conscientemente ou não, sintetizam a nossa ética, que a grosso modo, significam: saber que o sofrimento é algo inerente à condição humana, que não podemos viver no lugar do outro algo que lhe é próprio, que não podemos apartar o sofrimento de quem quer que seja , no máximo, acompanhá-lo.

Feliz dia dos namorados aos casais que exercem a dificil tarefa de transformar paixão em amor, todos os dias!

Beijos

MA

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Música: Guilty

3 thoughts on “Vamos falar de amor?

  1. Opa, vamos falar de amor sim Mariana =)
    Bem, permita-me escolher um tipo de amor que descobri recentemente, o amor de paternal.
    Quando vc fala sobre a simbiose mãe-bebê do carinho, cuidado e proteção, compreendo perfeitamente porque vejo no dia-a-dia como essa relação é marcante, necessária e primordial para o desenvolvimento saudável. Mas, com limites e acredito ser essa uma das funções paternas, ir aos poucos rompendo essa simbiose e abrindo espaços para que ali surja um sujeito.
    Saindo da função paterna para o amor paternal, é o que sinto ao acordar e antes de dormir, assim como quando chego em casa. Não como um simples “bom dia e boa noite”, mas com um sorriso ao amanhecer e um beijo mais um carinho antes do adormecer. Acredito ser importante ter a capacidade de demonstrar carinho e o amor no dia-a-dia, mesmo com a rotina, os problemas, o stress da vida cotidiana. É preciso se permitir começar o dia, ou terminá-lo, demonstrando o quanto aquele sujeito tem valor. Transformar o amor em ato é tão importante quanto amar, não basta dizer que quero o melhor para minha filha, necessário também fazê-la escutar e compreender esse amor, para que o sentimento não se perca num vazio. Sei que não é simples dialogar com o outro, mas se há respeito e disponibilidade para ouvir a comunicação flui mais facilmente.
    =***

    • Marcello, que bela declaração do que é o amor [paternal]. Vejo que esta experiência tem lhe inspirado bastante e tem sido seu motivo de alegria.
      Como você falou em outras palavras, o amor transforma as coisas e nos transforma. Passamos a ver a vida de uma outra perspectiva… mais intensa, por que não?
      Admiro seu carinho por Sofia e vejo quão sortuda ela é!

      Beijo grande!!!

      • Realmente Mariana, o amor torna a vida mais intensa, concordo plenamente.
        No caso específico do amor “paternal”, existe uma intensidade maior porque a todo momentos sou surpreendido pela minha princesa. Estou inclinado a pensar que uma parte do encanto que agora tenho pelos bebês está relacionado com a rapidez das mudanças. Não existe monotonia, sempre há uma novidade ao chegar em casa. Tento sempre me adaptar, interagir de um modo diferente, Sofia de ontem não é a mesma de hoje, entende?
        Sinto-me como naquele filme, “Como se fosse a primeira vez”, onde o Adam Sandler a cada novo dia tenta conquistar a Drew Barrymore. É muito gostoso!!!

        Beijosss

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