Cultura-mundo

Posso dizer que entendo e no fundo sentir angústia. A busca não cessa, o tempo é metonímia e a vida é metáfora diante do universo que estamos. Dizer que sim, sem medo, encarar o desejo, ou melhor, bancar o desejo próprio é uma forma de viver plenamente. Arriscar o destino planejado, mudar de planos, seguir o impulso, viver de coração aberto. Utopia?

Não sei qual a verdade da vida, não sei quem disse que felicidade é estar feliz a todo momento, todo segundo. Aliás, até sei quem diz, as indústrias, o capitalismo, ou como dizem os autores de “Cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada” – Lipovetsky e Serroy, a “cultura-mundo”, que está aí, diante de nós impondo seus dogmas, estilos de vida. Cabe a nós, filhos desta realidade, a difícil tarefa de filtrar o que de fato é importante ou não para se viver.

Ainda não sou tão pessimista quanto o autor acima, talvez por acreditar que há alguma esperança na essência do homem, mas acredito que hoje sofremos as conseqüências de nossos atos para com o planeta. Se vivemos num mundo que está um caos para muitos, será se não está na hora de pensarmos a respeito? Não serei a primeira e nem última a propor isso, somente mais uma…

Intolerância, guerras, preconceitos, descaso, corrupção, brigas entre religiões, disputa de países, fome, pobreza, miséria. Não sei bem por que [até sei na verdade], mas hoje fui visitar um shopping para o público diferenciado [high society!] aqui em São Paulo, e enquanto eu passeava pelas lojas, olhava vitrines e marcas conhecidas mundialmente, comecei a pensar em tantas coisas, que estavam para além daquele edifício luxuoso. Nem tão além assim, bastava sair do shopping.

Cada peça de roupa, sapato, jóia colocados de maneira estratégica, associados a uma imagem que remete poder, sedução, riqueza, tudo que [supostamente] queremos ser! O preço? Apenas um detalhe.  O argumento? Você não está levando um sapato apenas, mas tudo o que ele representa! E, de repente, diante deste argumento do vendedor/consultor o preço passa a ser algo irrelevante. As vezes, me sinto hipnotizada com alguns vendedores! Confesso que já me senti “obrigada” a levar uma peça de roupa, depois que todos os atrativos do produto me foram apresentados. Estranho isso, mas acontece, não só comigo.

Bom, o fato é que, andando pelo shopping, vendo madames, senhoras, crianças comprando compulsivamente, senti certa angustia diante daquilo. O valor das coisas se perde em determinado ponto. Os objetos são adquiridos com tamanha facilidade que da mesma forma são descartados, a curto prazo, trocados por novos objetos, mais legais e modernos. Que fique claro que não sou contra o capitalismo, sou filha dele!!!. O fato é que, a noção de limite se perde facilmente diante da oferta de produtos.

Antes, talvez no tempo da minha avó, um presente quando dado, significava algo, tinha um valor, um sentimento atribuído a ele, talvez por isso ele durava mais, ou fazia-se questão que durasse. Uma boneca, não era simplesmente uma boneca, simbolizava o carinho/amor de quem havia dado. Escolher 1 presente no Natal as vezes significava muito mais do que ganhar vários…

O preço que se paga no consumismo. Continuamos apostando que comprar alivia uma dor, tira o stress, manda embora a tristeza, é terapêutico. Para quem acredita que consumismo pode virar compulsão e em determinados momentos ocasionar angustia, talvez estes entendam um pouco mais sobre a subjetividade humana. Que é BEM mais complexa que uma tarde no shopping.

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