Laranja mecânica

Por que o cinema atrai tantas pessoas em suas exibições? O que esta arte tem de diferente das outras, como a pintura e a música?

Bom, pra começar, o cinema através de suas histórias de tantos gêneros, nos convida a uma viagem onde tudo é possível. A imaginação do expectador é motivada pelas ideias de quem escreveu e dirigiu o filme. Quem nunca se imaginou no lugar de um protagonista? É como uma projeção, de via dupla, ou seja, projetamos coisas nossas naquela história, e a história projeta em nós uma expectativa.

Sobre essa máquina de transformar sonhos em “realidade”, possíveis de serem vistos e passíveis de crítica, hoje quero falar de um filme que me marcou em dois momentos. O primeiro na escola, ainda no ensino médio, e o segundo na faculdade. Apesar de serem dois momentos importantes, revi esse filme várias vezes, e a cada vez, surgiam dúvidas e novas elaborações.

Ultra-violência, Beethoven, desrespeito, preconceito, agressividade, imaturidade, sexo, punição, liberdade, política. Palavras que ganham vida no enredo dirigido por Stanley Kubrick [que passei admirar depois desse filme]. Alex, um protagonista jovem, narra a história sob seu ponto de vista, e nos faz vivenciar todas suas fantasias e desejos mais primitivos.

Escolhi o filme “Laranja Mecânica” de 1971. Foi um filme revolucionário na época, que influenciou em vários contextos, da música a moda. O protagonista, Alex, vivido por Malcolm McDowell em entrevista a revista Cult conta um pouco sobre a experiência de ter vivido Alex e ter trabalhado com Kubrick, e confessa ter cortado relações com o diretor depois das filmagens, apesar da intensa amizade durante as gravações.

Um filme antigo mas que se atualiza a toda vez que se assiste a qualquer noticiário: Violência. A partir do tema, o livre-arbítrio, Kubrick invade a tela com muito “horror show” realizado por jovens que “criam problemas pois não têm diretrizes emocionais (…) Os pais cederam, a sociedade desistiu deles. Eles estão entediados, têm droga e causam problemas.”

Bom, esta fala de McDowell chama atenção, pois ele resgata a responsabilidade dos pais. Veja bem, responsabilidade e não culpabilidade. Em outro momento da entrevista, ele menciona que “é só olhar para seus pais (Alex) para simpatizar com ele de alguma forma. São emocionalmente vazios, qualquer criança que crescesse assim acabaria se tornando estranha.”

Sabe-se que o tipo de vínculo que se estabelece com os filhos promove uma estruturação psíquica, mas não podemos esquecer da influência que a sociedade e sua cultura exerce sobre o adolescente, que se encontra em uma fase de reedição edípica, onde, perguntas do tipo “Quem sou eu?” os motivam a testar seus reais limites. Limites do corpo inclusive, pois para Alex, são poucas palavras e muita ação. O próprio ator comenta que foi um filme muito “físico”, pois se machucou algumas vezes, quebrou costelas, arranhou a córnea [icônica cena do olho].

Ao ser submetido ao tratamento Ludovico, Alex torna-se um fantoche nas mãos deste novo projeto político: transformar delinquentes em cidadãos capazes de viver em sociedade.  Ele é submetido a medicações e estímulos como a Nona Sinfonia de Beethoven (que adorava) pareados com imagens de violência, o que lhe causa intenso mal estar. Neste caso, a desconsideração do livre-arbítrio grita: “Quando um homem deixa de poder escolher, deixa de ser homem.”

Ao final do tratamento, Alex é liberado para viver em sociedade e tenta suicídio. Vai para o hospital e na última cena do filme, vemos o velho Alex de volta, num gozo ao imaginar ter relações sexuais com uma mulher. Pronto, ele novamente escolheu, ou melhor, seu desejo falou mais alto, até mais alto que o próprio tratamento oferecido, cujo intuito seria abafar seu sintoma, abafar o sujeito que há nele. Podemos perguntar: um assassino como Alex deve ter sua subjetividade levada em conta? Se pensarmos em termos jurídicos, a punição lhe cai bem, se pensarmos em termos psíquicos, extirpar seu sintoma como no tratamento Ludovico, de nada ajudará.

Alex está pronto para viver em sociedade novamente, mas a sociedade estará pronta para ele? Toda a violência exposta no filme através de Alex e sua gangue pode ser pensada de diversas maneiras, uma delas, proposta pelo livro que inspirou o filme, é a de que essa rebeldia com a sociedade, com os pais ou a política, é uma fase da vida, que depois tais adolescentes estão aptos a integrarem a sociedade normalmente.

Bom, reivindicar por algo perde total propósito a partir do momento em que agressão e violência são utilizados como conteúdos argumentativos. Somos seres de fala, e não animais movidos por instintos.

“É necessário que o homem possa escolher entre o bem e o mal, ainda que escolha o mal. Privá-lo desta escolha é transformá-lo em algo que é menos humano – uma laranja mecânica.” Kubrick

Fico por aqui!

Beijos

2 thoughts on “Laranja mecânica

  1. Sou viciada em filmes e adoro saber sobre psicologia , adoro saber sobre filosofia!
    Legal seu blog!
    Recomendo alguns filmes –
    Nell
    Um método perigoso
    Closer -perto demais
    Beijos que matam
    A pele que hábito
    Coisas que você pode dizer só de olhar pra ela
    Fingersmith
    Encontrando Forrester
    Uma vida em sete dias
    Gia- fama e destruição
    Amor sem fronteiras
    Encantadora de baleias
    As cinco pessoas que vc encontra no céu
    Cisne Negro
    Sempre ao seu lado
    O pianista
    Comer rezar e amar
    O bicho de sete cabeças
    Do começo ao fim
    O lenhador
    Jhonny e June
    O lenhador
    Terra Fria
    De porta em porta
    Tempo de despertar
    Como se fosse a primeira vez
    Reine sobre mim
    Mentes brilhantes
    Gênio indomável
    O conde de monte cristo
    A casa dos espiritos
    28 dias
    Aos treze
    Alguém tem que ceder

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