Horizonte

Entre tantos passos, tropeços e quedas, pensou em desistir da caminhada. Com os pés calejados percorreu terrenos áridos, rumo a um horizonte perfeito e belo aos olhos. Desejo de alcançar o infinito e mais além. Não caminhava, corria. Não esperava, agia.  O tempo era traiçoeiro, não parava para novos fôlegos, então, porque ele havia de esperar também? Corria, como um menino que um dia atirou pedra na janela e fugia da culpa, mas sem nunca olhar para trás. Porque o passado ficou, e ele não, avançava rumo ao horizonte.

Sonhos, desejos, vontades, conquistas, ele queria tudo e muito mais. Mas só conseguiria se chegasse lá, no horizonte, que desde sempre admirava e almejava alcançar. “A vida aqui não vale a pena, lá serei feliz” – pensou. Correu deixando tudo para trás. Os pés pediam arrego, ele pedia mais, muito mais. Percorreu pedras, areia, água, lama, mato. Pulou córregos, atravessou pontes. Do ponto de partida, já não se via mais sua sombra, estava longe.

O inesperado. Mais que um tropeço, uma queda. Caiu. Parou. Mas o tempo, não. Olhou ao redor, olhou para si. Sem acreditar, estava no chão. Lembranças do que ficou para trás ocuparam a mente. Foi um sinal para voltar? Talvez. Vontade de voltar? Não. Com a mesma força com que bateu contra o chão, levantou. Olhou para cima, as estrelas eram testemunhas de sua odisseia. Estavam lá o tempo todo, acompanhando-o. Não precisava de mais nada. Brilhavam para ele, tinha certeza.

Ganhou impulso, recuperou a velocidade. Rumo ao horizonte, porque ele havia de alcançar. Dias, noites, meses, anos, o tempo não parava, nem ele. Um dia, como outro qualquer de sua jornada, precisou de água, debruçou-se no rio. De repente, viu que não estava sozinho. Tentou trocar algumas palavras, com aquele senhor. Todas em vão. Sem respostas, decidiu seguir viagem.

Mais dias e noites. O cansaço chegou acompanhado de uma boa dose de angustia. Não conseguia chegar perto do horizonte. Olhou para trás, viu outro horizonte tão lindo quanto. Estava no meio. Dividido. Sem um, nem outro. Caiu. Não como a queda de outrora. Uma queda mais brutal agora: Caiu em si. Cansado, passou a mão em seu rosto, como quem não sabe que direção tomar. Não reconheceu-se. Que face diferente era aquela? Resolveu voltar até aquele rio e conversar com aquele senhor que encontrou. Chegou até o rio, olhou para o fundo das águas, e o senhor apareceu.

Uma lágrima tocou a correnteza e o senhor se desconfigurou nas águas. Caminhou, caminhou, caminhou e esqueceu de si. O horizonte continuava lá, esplêndido e esperando por ele. Mas agora, ele queria viver, de verdade.

M.A.

One thought on “Horizonte

  1. Mariana, li o trecho de um livro da Elisabeth Roudinesco chamado: A família em desordem que me remeteu diretamente ao seu post.
    “À forte contestação dessa década (1960-1970) antiedipiana, anticapitalista e libertária, sucedeu-se um retorno à norma centrada em busca da reconstrução de si. E essa passagem de um Édipo renegado para um Narciso triunfante afirmou-se inicialmente nas comunidades terapêuticas da costa californiana. Foi em seguida analisada pelos sociólogos, os psicanalistas ou os filósofos como um fenômeno de desilusão ligado à perda do engajamento político. Se Édipo fora para Freud o herói conflituoso de um poder patriarcal decadente, Narciso encarava agora o mito de uma humanidade sem interdito, fascinada pelo poder de sua imagem: um verdadeiro desespero identitário.
    Não podemos aceitar nem a velhice nem a transmissão genealógica. Narciso, como sabemos, prefere por fim aos seus dias para não perder o que os outros depois dele poderiam receber. À diferença de Édipo, que se pune para que a cidade viva, ele se dobra em um encerramento trágico, mas protetor”

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