Polanski: O ato em cena

Risadas discretas , espanto, horror, gargalhadas, desconforto. De repente, a sala de cinema divide-se em diversos tipos de reações, gerando certa confusão a quem assiste ao mais novo filme do polêmico diretor Roman Polanski. Estamos acostumados a geralmente compartilhar do mesmo sentimento ao assistir um filme no cinema, se é comédia, que venham as risadas, se for drama, que caiam as lágrimas e assim por diante.  Mais que viajar na estória do telão, queremos compartilhar sentimentos e reações.

Em Deus da carnificina |Carnage – 2012| o incômodo com a gargalhada ou o horror alheio são efeitos provocados por uma estória no mínimo bizarra. Duas crianças se envolvem em uma cena de violência. Um garoto “armado” com um bastão ataca o outro, machucando-lhe gravemente o rosto.  Após tal cena, um corte no filme nos leva subitamente a outro conflito, não menos grave que o anterior. Embarcamos para o mundo psíquico dos pais das crianças, mundo este que se rende ao caos em questões de minutos.

“Eu acredito no Deus da carnificina” diz um dos personagens. Que Deus é este? Seria um Deus que habita cada um de nós? Um Deus que não mede palavras, que não pensa em consequências, um Deus egoísta, com sede de prazer, em outras palavras, um Deus dos impulsos? Deus este que fazemos questão de esconder em prol de um  bom convívio social. Contudo, vez ou outra ele aparece e se revela. Na verdade, não pensaríamos em um Deus, mas em uma força que gradativamente sofre influência da cultura, abdicando de seu princípio de prazer, indo para um “mais além” disso. O efeito do recalque na melhor da hipóteses nos deixa marcados para sempre por um sintoma que retorna e nos faz lembrar que um dia já fomos sujeitos de pura pulsão.

Excluídos da possibilidade de colocar em palavras o que lhes corre à mente, os personagens apelam ao ato para descarregarem uns nos outros seus conflitos internos. O que no início do filme estava tudo “sob controle” ao final já não se reconhece mais as famílias preocupadas com a educação e moral dos filhos. O ato violento entre os dois garotos torna-se o menor dos problemas a serem debatidos frente ao gozo desenfreado que lhes pertence. Em determinado ponto, nos perguntamos quem na estória é mais infantil: Os pais ou os filhos?

Polanski (diretor) deixa muito claro o mau-estar contido em cada palavra dita, ou melhor, não-dita, mau-estar este que penetra a subjetividade de quem observa atento ao desenrolar da trama. Mestre em fazer “a arte imitar a vida”, o diretor nos mostra a que ponto, nós, seres da linguagem, de pulsões e gozo rapidamente atingimos o ridículo, ou seja, as bobagens de nossa subjetividade. Para ele, expor-se ao ridículo nunca foi problema, haja vista seus atos na esfera da vida pessoal.

A cada ato uma palavra que não foi dita. A impossibilidade de simbolização nos retrocede ao caos, ao vazio, ao real. Real que não cessa, que insiste e provoca. Seja Polanski ou os personagens de seus filmes, o ato presentifica o imperativo de gozo, repetindo a cada cena uma impossibilidade de se submeter por inteiro às regras de uma sociedade, que diga-se de passagem não tem encontrado as melhores maneiras de simbolização.

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