Movimentar é preciso

Diante dos últimos fatos ocorridos no circuito psicanálise e saúde pública, senti-me convocada a exercer a escrita mais uma vez, numa tentativa (quem sabe) de elaborar tudo que foi absorvido durante o evento que ocorreu na Universidade de São Paulo, este final de semana (22, 23 e 24 de março de 2013), reunindo mais de 200 psicanalistas engajados no trabalho clínico com pessoas com autismo.

Tais fatos ocorridos, mencionados acima, referem-se as demissões em massa que vêm ocorrendo descaradamente nos serviços de saúde pública do estado de São Paulo. A saber, o último que tivemos notícia foi no CAPS Itapeva (diga-se de passagem, primeiro CAPS do Brasil) que tem em sua equipe multidisciplinar psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, etc. E anterior a isso, o “quase” fechamento do CRIA (Centro de Referência da Infância e Adolescência) vinculado a UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), sob a justificativa de que tal instituição não adotava métodos científicos em seus tratamentos, instituição esta composta por uma equipe com orientação teórica em psicanálise.

O fato é que, o clima de ameaça instalou-se entre os profissionais que utilizam-se da metodologia psicanalítica em suas práticas, e de repetente, me vejo de volta ao início do século XX, onde outras metodologias da saúde decidem extinguir e pulverizar a peste (lê-se psicanálise). Façamos uma pergunta: O que é ciência? Sim, me pergunto, porque se uma metodologia que está presente nas pesquisas financiadas por grandes universidades do país, que apresenta respostas e avanços nos tratamentos, que baseia-se em dados clínicos, não for uma ciência, o que mais pode ser? O que estamos fazendo nas universidades, pesquisando e publicando artigos CIENTÍFICOS? Nada?

Após todos esse acontecimentos, profissionais psicanalistas que atendem pessoas com autismo (médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, etc) tocados pelos absurdos na saúde pública reuniram-se no intuito de pensar e organizar um movimento que, mais do que tudo, defende a ideia da diversidade de metodologias e práticas na ciência. Mais ainda, defende o direito que os pais, por exemplo, tem em escolher o tipo de tratamento para seus filhos. Isso, claro, sem ser através um discurso persecutório, ou de denuncia de outras práticas, mas sim, um discurso que visa divulgarmos cada vez mais nosso trabalho (me incluo neste movimento) quebrando ideias e preconceitos desenvolvidos erroneamente, talvez por uma má interpretação teórica (pagamos caro por isso).

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Outro ponto importante ao qual o movimento está a favor, trata-se da possibilidade de diálogo entre ciências, diante de um diagnóstico. Em relação ao autismo por exemplo, não defende-se a ideia de que seja uma causa unicamente psíquica, mas que há também uma base orgânica envolvida. Em resumo, não se trata de radicalismos ou exclusão das outras ciências, o que reivindica-se aqui, é o diálogo aberto entre profissionais, numa proposta de equipe interdisciplinar, onde  há a construção de novos saberes nas fronteiras. Isso é olhar mais para o paciente, e menos para o próprio umbigo.

Como diz o nome (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública) é mesmo para movimentar, dar voz aos profissionais que defendem um trabalho com ética e na ética da psicanálise: a do sujeito. Tudo está sendo construído e pautado no desejo mesmo de cada profissional, desejo este que move para além das barreiras. Momento único este, pois trabalhamos com a escuta, e agora precisamos ser escutados.

Mariana Anconi

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