O brincar na constituição subjetiva*

O brincar enquanto atividade lúdica na infância é visto como algo natural e saudável, é também, um dos gozos máximos da existência. A partir da perspectiva da Psicanálise, o brincar tem demonstrado o quanto que se pode avançar em uma análise com crianças, tendo em vista que se trata de algo estruturante na constituição subjetiva, o que possibilita reflexões acerca da construção da fantasia e a maneira como isso opera na representação lúdica.

Trazer à luz a questão do brincar em analise suscita-nos a falar da infância e suas vicissitudes diante do atravessamento de seus tempos, considerando-se o tempo enquanto momentos lógicos e não cronológicos. Tempos em plural porque são vários a se considerar, como exemplo: tempos do sujeito, tempos da fantasia e, os tempos do brincar, que é foco deste trabalho.

Já que há de se considerar tempos para o brincar, supõe-se uma mudança dessa ação/atividade ao longo do tempo, ou seja, o brincar é uma produção ampla que se estende ao longo de toda a infância, mas que não permanece sempre igual, pois, ainda que apresente uma insistência em torno de certos temas, vai articulando diferentes respostas da criança diante do Outro.

Sabe-se que desde muito cedo Freud (1920) observava as crianças brincarem, principalmente seu neto, para então, formular alguns conceitos importantes da constituição subjetiva. A leitura clássica que ele faz do brincar encontra-se no fort-Da, onde seu neto de 18 meses, em um processo de alternância de ir e vir do carretel encontrava formas de elaborar a presença/ausência de sua mãe.

Contudo, a autora Julieta Jerusalinsky (2011) comenta que o Fort-Da refere-se a uma produção inaugural do brincar simbólico, que só pode se estabelecer a partir de um brincar anterior, que são os jogos constituintes do sujeito. Esses jogos constituintes do sujeito têm a peculiaridade de não ser nem só do bebê nem só da mãe, mas são criações produzidas para o bebê na relação mãe-bebê.

Um exemplo de um dos primeiros jogos constituintes do sujeito é o desmame, onde um observador curioso vê que o bebê pega o peito, solta, volta a pegar para largá-lo novamente. Assim, o observador curioso deve reconhecer a precocidade com que essa atividade introduz uma nuance lúdica. Por isso, o fato de a relação do bebê com o peito da mãe fluir numa periodicidade alternante, é, desde o começo, um tempo antecipatório do sujeito, uma tomada de posição, uma resposta ao Outro. (FLESLER, 2012)

Portanto, é possível observar uma estrutura de tempos em relação ao brincar, referente ao momento em que o bebê/criança está na relação com o Outro. Fica evidente, que, os jogos constituintes do sujeito são pautados numa dimensão espacial, pois envolve os corpos de ambos (mãe e bebê). Brincar é o próprio trabalho de constituição do sujeito na infância, da inscrição da letra na borda entre o gozo e o saber.

Também anterior ao jogo do Fort-Da há ainda jogos precursores, que ocorrem momentos antes do brincar simbólico, denominados de jogos de litoral, por Jerusalinsky (2011), que são jogos de borda, de superfície, de esburacamento, que aparecem quando se situam os tempos correlativos aos primórdios do brincar. São jogos de bordas, pois aparecem a partir de uma erogeneização feita pela mãe que introduz brincadeiras prazerosas, que supõe um brincar por parte do bebê, aí tem-se o primeiro brincar, que é algo suposto pela mãe. Depois isto se desenrola para o bebê que se oferece a mãe, estabelecendo o terceiro tempo do circuito pulsional.

Neste momento, para que o bebê explore outros territórios para além o corpo materno, é importante que outros objetos sejam oferecidos ao bebê como substitutos da mãe, em seus períodos de ausência. Winnicott (1960) explora este tema através do objeto transicional, que permite uma metáfora de “este é o Outro”. A partir disso, haverá entre um e outro a circulação de objetos substitutivos, instaurando assim um segundo tempo dos jogos precursores do Fort-Da.

Há ainda um terceiro tempo, caracterizado principalmente por dois jogos que foram descritos por Freud (1920) também. O primeiro chamado de “jogo de lançamentos de objetos para que o outro recupere” do qual Freud conta de seu incômodo com relação ao seu neto e esse jogo. O segundo jogo imediatamente precursor do Fort-Da é o “cadê-achou”, Freud (1926) conta que com esse jogo, a mãe possibilita ao bebê experimentar um anseio desacompanhado de desespero.

Nos jogos precursores do Fort-Da e no Fort-Da, propriamente dito, há uma dimensão espacial em relevo, mas não devemos descartar uma outra dimensão que está presente também e que vai se concretizar mais adiante ao Fort-Da em outras brincadeiras, trata-se da dimensão temporal.

Para Jerusalinsky (2011) os jogos de temporalidade se presentificam no litoral entre a expectativa e a precipitação. Essa dimensão temporal permeia, desde os primórdios, os cuidados dirigidos ao bebê. Em tais cuidados, a mãe espera as realizações do bebê com uma certeza antecipada, mas, quando ele se precipita na realização do ato esperado – como caminhar ou falar as primeiras palavras – isso toma a todos de surpresa. Esse jogo temporal também é retomado mais adiante pela criança quando brinca de tomar os pais de surpresa, de assustá-los dizendo “bu!”.

Dessa forma, tem-se a uma ideia apenas (pois o assunto é demasiado amplo para se esgotar neste artigo) da complexidade dos tempos do brincar na constituição do sujeito na infância, o que aponta para um processo marcado por mudanças e etapas estruturantes da subjetividade.

Mariana Anconi

*Artigo apresentado no VI Encontro Nordestino de Psicanálise com bebês (São Luís-MA) – 2012

 

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