As depressões na atualidade: O “blues” que ninguém quer saber

Olá pessoal, hoje postarei um texto que aborda um tema importante e atual. São muitas dúvidas a respeito deste tipo de diagnóstico, mas uma coisa fica clara, diante de tanta complexidade e confusão de discursos (médico, psicológico, etc), nossa sociedade atual não dá lugar mais a tristeza. É, a tristeza inerente a vida, que indica que estamos vivos e reagimos a determinadas coisas, assim também como ficamos felizes em outros momentos, não estamos anestesiados as situações da vida.

Boa leitura!

As depressões na atualidade: O “blues” que ninguém quer saber

Diante da proposta de escrever sobre algo que me faz questão, um assunto se destaca, através de sua pertinência atual, haja vista as demandas da sociedade de consumo em que nos encontramos. Muitas questões se abrem ao explorar o campo das depressões e suas particularidades, afinal de contas, a complexidade instala-se não pela patologia em si, mas pelo sujeito que há de se considerar antes do estabelecimento de uma hipótese diagnóstica.

De fato, as depressões (no plural) nos indicam o campo vasto que ouso adentrar, ainda assim, proponho neste trabalho de escrita uma reflexão acerca da questão que me acomete: Que lugar tem hoje o sujeito das depressões numa sociedade em que prevalece o imperativo do gozo, cujo maior valor é o bem estar a qualquer custo, mesmo que seja através do “apagamento do sujeito”? Questão esta que causa angústia diante das propostas oferecidas pelos diversos serviços de saúde mental.

Como dito acima, utilizo depressões no plural, porque traz o indicativo de algumas categorias as quais devemos considerar, posteriormente, neste trabalho. Sobre a questão que formulei acima, torna-se inevitável não pensar sobre as depressões como aquilo que vai contra a aceleração do mundo atual, e o sujeito nesta “posição de estagnação” não encontra espaço para que surja sua subjetividade. Pelo contrário, se vê obrigado a procurar técnicas e meios para se adaptar ao imperativo da felicidade. A tristeza está sendo sufocada pelas indústrias das pílulas “mágicas” que nossos doutores em psiquiatria receitam (sem critérios) àqueles que querem um lugar digno na sociedade.

Durante o processo de pesquisa bibliográfica para este trabalho, deparei-me com questões de diversos autores sobre tal temática. De sorte, fui capturada pelo livro da psicanalista Mara Rita Kehl que aborda o tema das depressões na atualidade. Dentre as diversas hipóteses propostas, a de que a depressão aparece como um sintoma social destaca-se para mim. Neste caso, depressão no singular, pois refiro-me a uma categoria específica, diferente por exemplo, da melancolia, que são comumente confundidas.
Ainda sobre a depressão como sintoma social, a autora sustenta a ideia de que:

As depressões, na contemporaneidade, ocupam o lugar de sinalizador do “mal-estar na civilização” que desde a Idade Média até o início da modernidade foi ocupado pela melancolia. (…) A depressão é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI. Por isso mesmo os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, veem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza. Se o tédio, o spleen, e outras formas de abatimento são malvistos no mundo atual, os depressivos correm o risco de ser discriminados como doentes contagiosos, portadores da má notícia da qual ninguém quer saber (p.112).

O que autora expõe é uma história que se repete dentro da saúde mental. A loucura, em seu percurso histórico, até hoje luta pelos direitos daqueles que já foram acorrentados, excluídos da sociedade, sem chance de fazer laço social algum, e, que, vez ou outra, situações de maus tratos e descaso são abafados, em nome de uma política higienista, que pretende “limpar” a cidade do lixo que ninguém quer ver. No caso das depressões, do blues que ninguém quer saber.

Em relação as categorias das depressões, não pretendo abordar questões de etiologia, mas destaco algumas diferenças cruciais para uma direção de tratamento no campo da psicanálise. Primeiramente, acredito que o esclarecimento entre os sintomas e causas da melancolia e depressão devem estar claros, para que nenhuma injustiça seja feita, tanto com os pacientes, quanto com os teóricos e interessados no tema. De fato, há uma diferença, estrutural até, entre ambas, ideia esta compartilhada entre alguns autores e estudiosos, aos quais simpatizo, e por ela me guiarei.

Freud nos presenteou com a riqueza de seus pensamentos a respeito da psique humana, e sabe-se que ao se tratar de estruturas clínicas, ele denominou o campo das neuroses de transferências (histeria, neuroses de angústia e neurose obsessiva), da perversão e o das psicoses.

A melancolia estaria mais próxima das psicoses, da esquizofrenia, isto devido a maneira como ocorre o processo de constituição do sujeito, diferente da depressão, que está no campo das neuroses. Sim, diferença primordial esta que possibilita intervenções diferentes no tratamento. Os conflitos em uma e outra são de outra ordem, devido a maneira como operam diante do Outro. No entanto, a melancolia estaria dentro das neuroses narcísicas, que não é neurose de transferência e nem as psicoses, como paranoia e esquizofrenia.

A respeito das duas, a noção de temporalidade para uma e outra são diferentes e nos ajudam a pensar a maneira como operam diante do “senhor” tempo. Para Pierre Fédida (2002), é possível compreender que na origem da depressão se encontra uma questão do sujeito com o tempo. O depressivo foi arrancado de sua temporalidade singular; daí sua lentidão, tão incompreensível e irritante para os que convivem com ele. Ele não consegue entrar em sintonia com o tempo do Outro.

Fédida (2002) enfatiza o valor da lentidão que caracteriza o percurso de uma psicanálise para sujeitos deprimidos. Para ele, a aceleração imposta aos atos mais corriqueiros da vida cotidiana contribui para uma “pauperização da vida psíquica” na forma de uma “desaparição normalizada do tempo da comunicação humana”. Na melancolia, o melancólico ficou preso em um tempo morto, um tempo em que o Outro deveria comparecer, mas não compareceu.

Esse alguém que não compareceu, André Green (1988) nomeará de “mãe morta”, ou seja, na melancolia: 1) a falta de objeto se inscreve precocemente como buraco no cerne do ser. Esse é o ‘furo no psiquismo’ a que se refere Freud: faltou ao melancólico a marca da experiência de ter sido o falo, significante da falta, para o Outro; 2) na melancolia, a questão do sujeito é com o Outro, que não se apresentou em tempo ou se retirou cedo demais, impossibilitando a identificação fálica que marca a experiência dos sujeitos não melancólicos antes que eles, forçosamente, a percam; 3) o nome-do-pai na melancolia está foracluído, já que não se inscreve por meio do discurso da mãe. No caso do depressivo, a identificação fálica ocorreu. O depressivo está marcado por ela, pela experiência de ter representado, para sua mãe, o falo. Também está marcado pela queda desse lugar privilegiado: o depressivo não é psicótico. (KEHL, 2011)

Pensar sobre a temporalidade, a posição diante do Outro, as políticas em saúde mental, a medicalização, o imperativo de gozo, o preconceito, a falta de informação e tudo mais que envolve o campo das depressões, possibilita abrir espaço para que se fale desses sujeitos e que eles próprios tenham voz diante da contemporaneidade. Mas, o que realidade mostra é que estes têm se calado cada vez mais, diante da ditadura da felicidade a qualquer custo. Retomo a pergunta: Que lugar estes têm na sociedade atual já que estão ‘fora do tempo’ ou do ritmo da sociedade?

Uma das saídas encontradas por alguns é buscar um espaço que o tempo singular seja levado em conta através de uma escuta do sujeito. Talvez aqueles que, na contramão das promessas de medicações milagrosas, procuram a psicanálise, estejam em busca de tempo.

A psicanálise, independente do tempo de duração das sessões, é um percurso em que o tempo não deve contar. Nesse sentido ela oferece a possibilidade de um (re) encontro do sujeito psíquico com a temporalidade perdida – a começar pela recuperação da experiência atemporal das manifestações do inconsciente. (KEHL, 2011)

Por vários motivos, os depressivos continuam procurando os consultórios dos psicanalistas, principalmente porque não suportam o empobrecimento da vida interior produzido, muitas vezes, pelo uso prolongado do antidepressivo. As depressões estão aí para, quem sabe, denunciar os abusos do capitalismo em relação ao sujeito, para serem também o contra fluxo da sociedade, causando incômodo e falando de coisas que ninguém quer saber, enquanto a sociedade avança anestesiada perante as catástrofes do aniquilamento dos sujeitos.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. FEDIDA, P. Os benefícios da depressão: elogio da psicoterapia. São Paulo: Escuta, 2002.
2. GREEN, A. Narcisismo de vida; narcisismo de morte. São Paulo: ESCUTA, 1988.
3. KEHL, M.R. O tempo e o cão: atualidades das depressões. São Paulo, Boitempo, 2009.

Mariana Anconi

4 thoughts on “As depressões na atualidade: O “blues” que ninguém quer saber

  1. Boa relação entre este tema com a contemporaneidade. Birman trata disso de forma interessante. Lembro-me de uma frase de uma psicanalista que disse: onde estão os melancólicos para nos mostrar sua criatividade? um pouco de melancolia favorece a criatividade. Vivemos numa época onde a criatividade fica restrita a tecnologia. O imperativo “seja feliz” é um perigoso convite, sem o humano se dar conta, a encontrar com Sade.

    • Olá Roberto, obrigada por ser comentário. De fato, o imperativo que vivemos hoje, nos remete a ideia de gozo infinito e incessante, relativo aos diversos discursos aos quais estamos submetidos (capitalista, por exemplo). Concordo, é um perigoso convite.
      Abraço!

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