Estresse na gestação e as possíveis repercussões sobre o desenvolvimento do bebê

Olá pessoal,

Hoje apresento um texto que traz contribuições do campo da medicina, psicologia e psicanálise. Trata-se de uma reflexão do conceito de estresse e seus efeitos no bebê ainda no útero da mãe.  É um tema que não se esgota no que aqui está apresentado, e, nos faz abrir um campo de discussão amplo e importante para os estudos em intervenção precoce com bebês.

Boa leitura!

Estresse na gestação e as possíveis repercussões sobre o desenvolvimento do bebê

O tema do estresse na gestação tem sido estudado nas diversas especialidades da saúde, principalmente pela medicina, que, a partir dos avanços técnicos – predominantemente a ultrassonografia – pode ter acesso “direto” ao feto ou à sua imagem. Isso possibilitou o estudo sistemático e razoavelmente preciso de seu comportamento no meio intrauterino e deu sentido e perspectiva à percepção dos movimentos fetais – o que, de certa forma, mudou para sempre a representação social do feto e da criança e marcou, significativamente, as relações familiares com o bebê por nascer. (LAURENTI, 2008)

Além da medicina, a psicanálise, tem apresentado estudos pautados em experiências clínicas que reafirmam a ideia da díade mãe-bebê enquanto um vínculo complexo de ações e reações fisiológicas e psíquicas. Para chegarmos aos efeitos do estresse no feto, antes, se faz importante buscar referências que estudam a relação do psiquismo da mãe com a do bebê.

No anos 50, de acordo com Laurenti (2008) embora a maioria dos psicólogos achasse absurda a ideia de que elementos da personalidade poderiam se formar durante a gestação e sustentasse que até o momento de nascer o bebê era uma página em branco – carente de sensações e até da capacidade de sentir dor – na década dos anos 60, os psicólogos rastrearam sinais de um desenvolvimento emocional precoce, dias ou horas que seguem o nascimento, e formularam o conceito de bording (vínculo), através do qual mãe e feto estabelecem um apego recíproco e comunicam seu amor imediatamente após o nascimento.

Nesse contexto destaca-se Wilhein (1992), que durante muito tempo realizou e depois publicou diversos estudos científicos que puderam comprovar que o bebê é um individuo profundamente sensível, que estabelece uma relação intensa e direta com os pensamentos e as emoções da mãe e também com o mundo externo mesmo estando dentro do útero.

Diante disso, levou-se em conta que as emoções da mãe poderiam se transferir fisiologicamente para o bebê intraútero. Isto é, uma mãe sob tensão emocional apresenta alterações hormonais que ultrapassam a barreira placentária produzindo mudanças no equilíbrio psicofisiológico do bebê. Portanto, estudos mostram hipóteses sobre os possíveis efeitos do estresse no embrião-feto.

Sobre os efeitos do estresse e outros distúrbios psíquicos no feto, o psicanalista Julio Aray (1970) estudou profundamente a influência do stress pré-natal sobre o feto e sua relação com o aparecimento das angustias persecutórias e depressivas anteriores ao primeiro ano de vida. Ele afirma que a ausência de sintonia da mãe com o feto, emoções maternas, estados de depressão, tristezas ou alegrias atingem o feto. E isto acontece a nível bioquímico, como por exemplo, as alterações de catecolaminas maternas nos estados de ansiedade, que irão repercutir sobre o estado neurofisiológico do feto.

“Se uma grávida suporta um estado de tensão agudo ou crônico,

seu corpo fabrica hormônios de stress (entre eles a adrenalina e noradrenalina)

que levadas pela corrente sanguínea chegam ao útero

e induzem no feto o mesmo estado de tensão. Ainda que certo nível de

tensão seja normal e tolerável na gestação, está provado que mães submetidas

a um estado de tensão extremo e constante têm mais probabilidade de ter

filhos prematuros, com peso inferior ao normal, hiperativos, irritado

s e com predisposição á cólicas” (Golfeto, 1993 apud Laurenti, 2008).

Recentemente, estudos alertaram mais profundamente que o feto responde as emoções e tensões da mãe, onde o estresse materno crônico, durante a gravidez, se associa com os níveis elevados de Hormônio Liberador de Corticotrofina (CRH), de Hormônio Adrenocorticotrófico (ACTH) e de Cortisol. Esses hormônios podem aumentar a probabilidade do nascimento de prematuros, de atrasos no desenvolvimento infantil e anormalidades comportamentais nas crianças. As anormalidades de desenvolvimento e de comportamento nos filhos poderiam ocorrer devido à sensibilidade do cérebro fetal a esses hormônios maternos aumentados pelo estresse, assim como à ação danosa no cérebro do feto pelos glicocorticóides e neurotransmissores envolvidos pelas grandes tensões emocionais da mãe (WEINSTOCK, 2001, apud LAURENTI, 2008)

Portanto, “o estado emocional da mãe, durante a gestação, influi no futuro bem-estar emocional da criança que vai nascer ou, outras vezes, pode determinar até a interrupção da gravidez” (BORTOLETTI, 2007).

Considerações 

A gravidez constitui um período do ciclo de vida, que na maioria das vezes poderia transcorrer sem desvios da saúde, porém envolve em si uma crise adaptativa caracterizada por complexas transformações fisiológicas, emocionais, interpessoais e sócio demográficas, as quais implicam na necessidade de um cuidado especializado a gestante. Diante de tantas mudanças e adaptações que ocorrem no contexto familiar, o foco deste trabalho foi a influência da condição psíquica (estresse) da gestante no desenvolvimento do feto.

A partir das teorias e campos da ciência explorados no artigo, fica claro o quanto que o avanço da medicina aliado as outras teorias (psicanálise, por exemplo) contribuíram para o entendimento que se tem hoje a respeito da vida intrauterina, o que antes já foi considerado um verdadeiro mistério.

As hipóteses apresentadas, seja de caráter psíquico ou fisiológico, a respeito das repercussões do estresse no feto, são consequências de estudos mais aprofundados que marcam o momento em que a ciência encontra-se e o quanto ainda precisa caminhar. Fica evidente que ainda não há provas suficientes para afirmar se situações de estresse ou de ansiedade da mãe durante a gravidez afetam o desenvolvimento psicossocial da prole a longo prazo, e em que momento isso ocorre.

No entanto, compartilha-se da ideia de Glover (2011) a qual afirma que neste momento a prudência científica é inadequada em contextos clínicos. A ausência de certezas não deve nos impedir de formular um julgamento esclarecido, e correr o risco do equívoco (com bases lógicas) para reduzir os danos, na medida do possível. Para decisões de políticas sociais, nossa abordagem deve ser diferente daquela adotada pela ciência básica.  Aguardar até que haja provas concludentes pode levar a problemas futuros desnecessários.

Portanto, as provas fornecidas pelas experiências com animais, os dados sobre parto prematuro e restrições no crescimento nos seres humanos, bem como as evidências dos efeitos diretos do estresse pré-natal sobre o comportamento da criança, constituem bases suficientes para a recomendação de novas políticas e atualização das práticas.

Mariana Anconi

2 thoughts on “Estresse na gestação e as possíveis repercussões sobre o desenvolvimento do bebê

  1. Alguma vez entrou em contato com o trabalho do Dr. Herminio Castellá?? o filho dele deu continuidade ao mesmo e escreveu um livro intitulado “A concepção e o sentido da existência”, o postulado dele é o mesmo que está sendo apresentado nesse post, no entanto, vai além pois segundo Castellá não só as experiências durante a gestação influenciaram diretamente o desenvolvimento e a personalidade do bebê senão também as experiencias vivenciadas pelos ancestrais maternos.

    Vale a pena conferir:

    http://www.san-pablo.com.ar/libreriavirtual/product_info.php?products_id=730

    Parabéns pelo Blog, cheguei ao mesmo de casualidade hehe.

    OBS: poupe meu português embora seja esquisito, acredito que dá para entender o mesmo :/.

  2. Mariana, bom dia. Li seu artigo e achei muito interessante. Gostaria de saber quais as fontes pesquisadas e se existe alguma específica que vincula o estressa à interrupção de gravidez ? Qual é o estudo mais aprofundado sobre esse assunto ? Obrigada e parabéns

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