Mais humor, por favor.

Olá pessoal!
Hoje escrevo sobre o humor e seus efeitos na sociedade,  no cotidiano ou na experiência de análise. Tema este tão explorado pelas mídias que, ganha destaque neste texto, por suas peculiaridades entre o cômico, o chiste e o humor e a relação com a subjetividade.

Boa leitura!
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Diante da febre dos vídeos de humor super divulgados na internet, estes, tornam-se quase irresistíveis, e nos colocam na esperança de um encontro com o cômico. A mídia tem explorado o humor e o cômico intensivamente, a nova geração de comediantes tem conquistado cada vez mais o público (a massa), através do riso, que é o objetivo a princípio. As gargalhadas, forçosas ou não, apresentam um efeito no coletivo, seja de crítica, de revolta, de gratidão (por fazer as pessoas esquecerem, mesmo que momentaneamente, seus problemas), e, por que não, de reflexão acerca de tabus ainda presentes na sociedade.

As piadas têm um único objetivo final: produzir riso no outro. Sabemos que muitos “piadistas” utilizam-se de um discurso preconceituoso para atingir seu objetivo, mas isso não é novidade, nem tem seus primórdios na contemporaneidade. Mas, o que chama atenção é que sempre existe algum discurso que sustenta o que é dito. Tais discursos são diversos e igualmente produzem efeitos diversos, mesmo que o comediante pertença a um contexto social e cultural semelhante ao de sua plateia.

Sobre os efeitos produzidos, ao contrário do que muitos pensam, o comediante não apenas busca a gargalhada da plateia, mas é também formador de opinião, mesmo que seja através do cômico, e isso, a meu ver, não os tira da responsabilidade do que dizem, pois em um universo de falas, eles escolheram aquela específica para enviar ao público.

O cômico, assim como o chiste (descrito por Freud) pertence à classe da mímica, da caricatura, do travestismo, da paródia, do disfarce, do desmascaramento, da imitação. Já o humor, que é algo que nos interessa também, é de outra ordem. Considerado como uma forma de comicidade também tem algo de libertador, mas não tem a mesma explosão de prazer e riso encontrados no chiste, porém, é mais sublime e enobrecedor. Ambos estão a serviço do princípio do prazer, mas de formas diferentes, e é bem verdade que o estudo do humor tem suas raízes nos chistes.

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Podemos conferir o humor, por exemplo, nos filmes de Charles Chaplin e Wood Allen. Já o cômico é uma relação dual: quem constata e o que é constatado. O riso surge da diferença na comparação entre a expectativa de uma ideia e sua constatação. Geralmente põe em evidência uma despesa maior que a necessária. Exemplos clássicos temos nos filmes: Os Três Patetas, O Gordo e o Magro, Os Trapalhões, etc.

Agora que definidos mais claramente sobre suas diferenças, podemos resgatar a ideia de humor de maneira mais ampla, seja na vida, no cotidiano diante das intempéries, seja no processo de análise, ao qual este torna-se ingrediente interessante na díade analista-analisando. Freud no decorrer de sua vida, deu evidências sobre seu humor, um homem um tanto espirituoso. Algumas passagens de sua vida confirmam este dom, por exemplo, quando as autoridades nazistas exigiram que ele assinasse um documento declarando não ter sofrido maus-tratos. Ele assinou, mas acrescentou de próprio punho: “Posso recomendar altamente a Gestapo a todos”. Para sua sorte, seu fino humor passou despercebido pelos oficiais.

Sobre a análise o imaginário popular muitas vezes relaciona tal experiência a algo penoso e dramático: “A condução de uma análise não deve fixar-se no registro do drama, e, sim, investir em transformá-lo no registro apenas do trágico. Segundo Joel Birman, foi Lacan quem relançou essa dimensão do trágico na psicanálise, ao enunciar a existência da relação paradoxal do sujeito com a dor, o prazer e a morte que se descortinam na experiência psicanalítica. O humor já faz parte das possibilidades clínicas, tirando o analista de uma posição rígida, sem cair, no entanto, no piadista irreverente.” (Ribeiro, 2008)

Aquele que consegue transformar o drama em algo tragicômico, em determinadas situações, atesta a capacidade de rir de si, e isso na clínica traz indicações de um superego que não se fixa em uma posição masoquista, sendo uma vítima acorrentada a pulsão de morte, mas que sabe deslocar-se da impotência do dramático, para de modo triunfante de dar a volta por cima.

Mariana Anconi

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