ELEMENTOS ONÍRICOS NA OBRA DE FRANZ KAFKA: Uma articulação com a teoria dos sonhos de Freud

Olá pessoal, vamos falar de sonhos e literatura? Hoje vai um texto que articula estas duas temáticas.

Boa leitura!

Colocar em palavras, através da escrita, a percepção que se tem de tudo ao redor, inevitavelmente significa expor a subjetividade ao mundo, ou seja, a escrita não deixa de ser um meio de elaboração e sublimação de questões próprias do sujeito. Há estudiosos que vão além, e reforçam seu efeito psíquico estruturante. A palavra registra no papel as marcas de um conteúdo referente a história de cada um, a trajetória percorrida, os sonhos e desejos mais íntimos.

Para abordar o tema dos sonhos, contextualizado pela obra de Sigmund Freud de 1900 – “A interpretação dos Sonhos” – opto por fazer uma associação à obra kafkaniana em geral, que na sua peculiaridade traz à tona temas aparentemente corriqueiros e banais, mas que em seu cerne aborda um pensamento nem tão óbvio, extrapolando limites tais como individual/coletivo, consciente/inconsciente e realidade/sonho. É possível, e interessante até, destacar algumas repetições temáticas em suas obras como: a imagem paterna, as figuras femininas, as epístolas, os combates, as transformações, os porteiros colossais, as sereias, as angústias, etc.

Destes temas que se repetem, três ganharão destaque neste trabalho: as transformações, os mitos e as angústias. Onde o intuito é articular à teoria dos sonhos de Sigmund Freud.

A Psicanálise, através da figura de Freud, rompeu barreiras e lançou novos paradigmas ao introduzir uma “terceira ferida narcísica” na humanidade, com o conceito de inconsciente, e, a ideia de que o homem não é senhor de si, ou seja, somos regidos por leis internas construídas ao longo da vida, nas relações afetivas, no laço social. O sonho, na abordagem psicanalítica freudiana, é visto como uma das produções mais singulares da mente, provido de sentido e, que, passa por complexos processos de transformação, até alcançar seu conteúdo manifesto (consciência).

Transformação. Palavra que remete à essência dos escritos de Kafka, que vai desde transformações subjetivas e metafóricas, até as mais literais, como a do corpo que sofre uma metamorfose animalesca. De fato, o escritor tinha um horror ao seu próprio corpo, via de forma distorcida e, de certa maneira, expôs isso em sua obra. Em A metamorfose (1915) um caixeiro-viajante, Gregor Samsa, acorda em uma bela manhã e descobre ter sido transformado num inseto gigante. Os aspectos de distorção e transformação podem ser pensados á luz da teoria dos sonhos, quando, por exemplo, Freud explora conceitos como deslocamento e condensação. A hipótese do processo de condensação surgiu da constatação do laconismo e da pobreza do conteúdo manifesto de alguns sonhos comparados à riqueza dos pensamentos latentes desses mesmos sonhos quando analisados (…) A condensação é vista como uma espécie de sutura sob os quais se efetuou uma fusão entre diversos pensamentos latentes muito diferentes entre si, o que ocorre também a propósito de palavras ou nomes, pode levar a formação de palavras ou nomes novos, às vezes de ressonância cômica (…) Já o deslocamento resulta de transferências de intensidade psíquicas de alguns elementos para outros, de tal maneira que alguns deles ricos, tornam-se sem interesse, podendo assim escapar à censura, enquanto outros se descobrem desvalorizados. (Roudinesco & Plon, 1998) A transformação do personagem em inseto ganha destaque e ênfase, se comparado à crítica da obra a respeito do isolamento e exclusão do que é visto como diferente para a sociedade.

Mito. Kafka em um pequeno texto de 1917 revisita o mito das sereias – O silêncio das sereias – onde propõe uma interpretação bem peculiar do célebre episódio do encontro entre Ulisses e as sereias que Homero narra no canto XII da Odisseia.  Sobre este texto, que se trata de uma interpretação feita por Kafka (emudecendo as sereias e ensurdecendo Ulisses) remete-se a ideia da própria prática da interpretação dos sonhos, onde a tendência em generalizar os símbolos dos sonhos, o que foi proposto por vários autores da época, é renegada por Freud, e o sentido que cada sonhador dá ao seu próprio sonho é o que se aponta como relevante. “Ocorrera-lhe a ideia, ao escutar os pacientes lhe contarem seus sonhos da mesma forma que seus sintomas mórbidos, que o sonho, a exemplo da fantasia e do sintoma, era um estado psíquico passível de constituir, também ele, o ponto de partida de associações livres.” (Roudinesco & Plon, p. 393, 1998). Kafka, à sua maneira, interpreta e dá um novo sentido ao mito das sereias, como se fosse seu próprio mito (sonho).

A angústia. Pensar a angústia na obra kafkaniana é inevitável, inclusive no romance O processo (1925) onde o personagem principal Josef K., é preso sem um motivo claro e passa o livro inteiro em busca de uma explicação para o ocorrido, enquanto é arrastado para um labirinto de repartições, funcionários sem nome e procedimentos desconcertantes, criando uma tensão claustrofóbica. Tal situação abordada na obra, se transposta as características de um sonho, seria possível pensar em um sonho de angústia, ou mesmo, um pesadelo. O sonho de angústia talvez possa ser definido como aquele cujo conteúdo manifesto ou latente provoca o súbito despertar por uma crise de angústia, comumente associada a manifestações corporais. É no corpo que a angústia se manifesta, porque ela “aponta para algo que sinaliza a verdade do sujeito. Verdade que toma corpo, literalmente” (RODRIGUES, 2007).

Diante dos três tópicos extraídos da obra de Kafka, fica evidente a riqueza do conteúdo exposto em sua escrita e na sua maneira de organizar as ideias e pensamentos. Em suas obras, elementos como metáfora e metonímia estão presentes, assim como nos sonhos descritos por Freud. A valorização de detalhes, os absurdos, paradoxos e conflitos são apenas alguns elementos que nos ajudam a fazer esta articulação com a teoria dos sonhos pensada por Freud no final do século XIX.

Mariana Anconi

 

REFERENCIAS

  1. ROUDINESCO,E. & PLON, M. Dicionário De Psicanálise. RIO DE JANEIRO: ZAHAR, 1998.
  2. RODRIGUES, G.V. Percursos na transmissão da psicanálise. BELO HORIZONTE: OPHICINA DE ARTE & PROSA, 2007.

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