SINTOMA E DESEJO PSICANALÍTICO: Uma perspectiva linguística

Olá pessoal, como de costume, as postagens ocorrem aos domingos, mas esta semana não tive acesso ao blog no final de semana, portanto, a atualização será hoje. Nem sempre divulgo os textos completos, pois são longos demais para a proposta do blog, que pede artigos mais objetivos. Hoje vai um um trecho do texto apresentado no ano de 2010 sobre psicanálise e linguística.

Boa leitura!

Ao adentrar o campo da lingüística se faz importante retomar os conceitos que foram propostos, no Curso de Lingüística Geral de Saussure, publicado postumamente por seus alunos.

A Linguística sempre foi tema de debate de vários estudiosos, como historiadores, filólogos, etc. Isso se deve ao fato de sua extrema importância para a cultura geral. A linguagem como objeto de estudo, mostra-se imprescindível para o desenvolvimento dos indivíduos e da sociedade. Ela coloca o homem no estatuto de sujeito, de um ser que permeia o simbólico e que vai além de seus instintos.

Saussure ao propor um estudo sobre a linguagem explana sobre o conceito de signo. O signo lingüístico é uma unidade composta por duas faces: o significado e o significante. De acordo com o autor Garcia-Roza (2008), o signo não é a união de uma coisa e um nome, mas a união de um conceito e uma imagem acústica (ou impressão psíquica do som).   Tem-se o signo como:

signo

Conceitos como a arbitrariedade e linearidade são explanados por Saussure, como características dos signos. Sendo, o primeiro, entendido como a inexistência de relação necessária entre um significado e um significante, ou seja, a palavra árvore pode ter o mesmo significado em outros idiomas como arbre, tree, arbor, etc. Os significantes podem mudar, mas têm o mesmo significado. E o segundo que atinge somente o significante e não o signo em sua totalidade, pois é de natureza auditiva, ou seja, o significante se desdobra no tempo e deste toma suas características, que fazem com que não seja possível pronunciar  dois elementos ao mesmo tempo. (JORGE, 2005).

Saussure lança mão de uma metáfora surpreendente para definir a arbitrariedade do signo: a língua é uma “carta forçada”. Assim, uma das funções da língua é “forçar” a ligação de uma imagem acústica (massa sonora constituída por fonemas) a uma imagem mental (significado). (JORGE & FERREIRA, 2007, p. 48).

Logo, para Saussure, o signo é uma unidade indissociável, mas que sua significação não se esgota nesta relação (significado/significante), ou seja, o signo também se relaciona com outros signos da língua.

A partir daí, Saussure atribui o conceito de valor ao signo, que indica como um termo no interior de um sistema (sistema da linguagem) que vai constituir o valor de um signo como um elemento de significação. No entanto, ressalta-se que Saussure não elimina a idéia de relação isolada entre o significado/significante confirmando a idéia de relativa autonomia desta relação.

Ainda sobre a lingüística, Roman Jakobson,  grande lingüista do século XX, fala também de conceitos que serão utilizados pela Psicanálise, por exemplo, a metáfora e a metonímia. Tais conceitos estão situados na cadeia significante: substituição de um significante por outro, para um, seleção de um significante na série, para outro. Do que resulta que a substituição se faz por similaridade, a seleção por contigüidades.

LACAN E A SUBVERSÃO DA LINGUÍSTICA

Lacan, grande estudioso que era das diversas ciências, se deixou envolver pelas idéias da lingüística que rondavam os intelectuais da época, tanto que, passou a estudar as idéias de Saussure, o que lhe ajudaram bastante para enriquecer à teoria de Freud. A influência da lingüística foi tão notável que é considerada um divisor de águas em sua obra. Considera-se a partir de 1957, um Lacan clássico e estruturalista, que dura até meados de 1964, com o seminário 11 intitulado: “Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise”.

No artigo intitulado “Função e campo da palavra e da linguagem em Psicanálise”  de 1953, Lacan fala da importância que a linguagem adquire em sua elaboração do simbólico. A Psicanálise é aí descrita como uma experiência da palavra plena, que vem substituir a palavra vazia do discurso do neurótico. Quatro anos mais tarde Lacan complementa este artigo em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, onde formula as leis da metáfora e metonímia. No entanto, Lacan vai além do que foi proposto por Saussure, apropria-se da lingüística, mas adapta a sua maneira.

Primeiramente, Lacan inverte os componentes do signo lingüístico proposto por Saussure, tornando-se: S/s, sendo S (significante) e s (significado). De acordo com Jorge (2005) várias mudanças ocorrem, tais como:

  • Caem não só o círculo que contorna o algoritmo e designa a unidade do signo lingüístico, como também as flechas que indicam a relação entre significante e significado enquanto indissociável.
  • A linha que Saussure designava a relação entre significado e significante adquire um valor próprio que não apresentava, o de uma barra de separação “resistente a significação”. A barra é franqueada na metáfora e não o é na metonímia.
  • O significado desliza sob o significante, como no esquema das duas massas amorfas de Saussure. No deslizamento entre os dois se produz, de quando em quando, um ponto de basta, no qual vem atar-se o significado e o significante, ponto em torno do qual deve exercer-se toda análise concreta do discurso.

A estrutura do significante se caracteriza pela articulação e pela introdução da diferença que funda os diferentes. Lacan, em seu seminário 20, intitulado “Mais, ainda” (1972) ele questiona:

O que é um significante? O significante – tal como o promovem os ritos de uma tradição lingüística que não é especificamente saussuriana, mas remonta até os estóicos de onde ela se reflete em Santo Agostinho – deve ser estruturado em termos topológicos. Com efeito, o significante é primeiro aquilo que tem efeito de significado, e importa não elidir que, entre os dois, há algo de barrado a atravessar. (p. 25).

Enquanto Saussure explicava que o signo lingüístico era uma entidade indissociável, onde mantinha uma relação de autonomia (significado/significante), Lacan indicava a barra que separa os dois componentes aponta para duas ordens distintas, a do significante e significado, interpondo-se entre ambas uma barreira resistente a significação. Neste momento Lacan quebra a unidade do signo defendida por Saussure. A cadeia de significantes é ela própria a produtora de significados. É essa cadeia que vai fornecer o substrato topológico ao signo lacaniano, impondo que nenhum significante possa ser pensado fora de sua relação com os demais. (GARCIA-ROZA, 2008).

Por fim, sua crítica a toda filosofia que busca por um significado, é que o significante não tem por função representar o significado, mas que ele precede e determina o significado. Ao final de sua teoria, não podemos considerar Lacan estruturalista, pois ele inclui o sujeito representado entre significantes, diferente de Saussure.

De acordo com Jorge (2005), para Saussure, a língua é concebida como um sistema fechado, o que coloca de saída uma diferença radical entre noção de estrutura fechada do estruturalismo e a estrutura aberta, hiante, que implica a falta, que é posta em relevo pela psicanálise. Basta entender agora como se articulam estes significantes que ajudarão a entender os conceitos propostos pelo artigo: sintoma e desejo.

 

SINTOMA E DESEJO PSICANALÍTICO

Ao estudar conceitos como sintoma e desejo pelo viés da lingüística é necessário antes nos remetermos a uma leitura da teoria de Freud, para então, concluirmos em Lacan. Encontramos também na literatura a leitura de autor que foi muito próximo a Jacques Lacan: Jacques-Alain Miller. Utilizaremos também alguns de seus textos para abordar esta temática.

Estes são conceitos que estão intimamente interligados, e que, fazem parte do processo de inauguração da própria Psicanálise. Freud ao estudar os casos de suas primeiras pacientes, aprendeu muito através da histeria e suas formas de manifestação no corpo, denominadas de sintomas. Mas, estes sintomas manifestavam-se de maneira particular, e o médico que era habilitado a curar tais pacientes não encontrava recursos para tratar destes sintomas que iam para além do biológico e físico.

Primeiramente, no inicio da Psicanálise, os sintomas eram tratados através de um método que causou grande curiosidade na sociedade, o método catártico, realizado através da recordação sob hipnose. Posteriormente, este cenário foi mudando e o tratamento passou a ter uma única regra fundamental para o paciente: a associação livre. A partir daí, nasce a Psicanálise de fato, baseada no discurso e na fala dos pacientes.

O fim do tratamento chegava quando os sintomas desapareciam, em função do paciente integrar em sua fala, isto é, tornar consciente, o que não queria saber. De acordo com Jorge & Ferreira (2005), o inconsciente é um saber que opera produzindo efeitos no sujeito. O recalque, mecanismo que desempenha um papel fundamental nas neuroses, é um “não querer saber nada disso”. O sintoma neurótico é uma forma de satisfazer uma determinada exigência pulsional, sexual, que não encontrou caminho para a consciência e se presentifica de modo deformado.

Sendo assim, o sintoma psicanalítico, é aquilo que retorna do que foi recalcado, ou seja, é uma manifestação do inconsciente. É como se fosse algo viesse substituir o material recalcado. Essa substituição nos remete a maneira como opera a metáfora. O sintoma aparece como uma fixação significante do desejo, como se o movimento de reenvio pudesse interromper-se, tendo sido fixado por um significante. (Miller, 1981, p. 79). O movimento de reenvio citado por Miller remete ao mecanismo dos significantes em cadeia, presos no trilho da metonímia.

Já o desejo, opera de forma diferente do sintoma. Freud ao falar de desejo, não foi o primeiro a explorar este conceito. Esse conceito já havia sido proposta por Hegel em seu famoso capítulo IV da Fenomenologia do espírito. O que a Traumdeuntung nos revela não é o desejo hegeliano, mas o desejo freudiano, e a diferença fundamental entre ambos está no inconsciente. O desejo que Freud nos fala é o desejo inconsciente. (GACIA-ROZA, 2008).

De acordo com Maurano (2003), o desejo, portanto, enquanto conceito psicanalítico é o remetimento a uma falta, nostalgia da suposta presença da “Coisa” que teria nos salvado de uma situação de desamparo quando bebês. Tem-se com isso uma passagem do campo da necessidade ao campo do desejo.

O desejo tem como característica primordial o seu distanciamento com respeito à satisfação. É o descentramento com relação à satisfação que vai permitir a Lacan falar da errância do desejo e a utilizar para o seu esclarecimento o conceito lingüístico de metonímia.

Miller (1981) fala dos significantes quando diz que o desejo aparece como uma articulação significante (um envia a outro) e como efeito do significado dessa cadeia, fazendo com que a significação na linguagem seja sempre escorregadia, sempre reportada para mais tarde.

Logo, temos o desejo como o de outra coisa, pois não há nenhum significante único que possa identificá-lo, articulando-se assim de maneira metonímica, e o sintoma como algo substitui o que foi recalcado, metaforizando.

Mariana Anconi

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