Comentários sobre a teoria da sexualidade de Freud e o filme Tomboy

O que é o feminino e o masculino? É determinado pelo biológico? Qual a influência do ambiente? Estas e outras perguntas atravessam épocas e gerações distintas, paradigmas e culturas diversas. Grandes autores elucidaram este tema através de diferentes perspectivas e linhas de pensamento. As questões relacionadas a gênero e identidade são complexas a ponto de não se ter um consenso quanto as respostas. No entanto, alguns autores tiveram o cuidado de desenvolver teorias que tentassem pensar o que está para além do determinismo biológico e orgânico, que foi o caso de Freud, que, a partir de seus estudos acrescentou a sexualidade à problemática em questão.

Freud (1856-1939) através sua teoria da sexualidade revolucionou o pensamento do século XX, a partir do conceito desenvolvido sobre o inconsciente (que já havia sido debatido por filósofos anteriores a ele).  A partir disso, a psique humana vislumbra um novo panorama a respeito de sua constituição, atrelada a ideia das pulsões e a sexualidade infantil, causando grande polêmica na sociedade da época.

Ideias como a bissexualidade foram trazidas por Freud, que desde já, apontavam para a complexidade entre o que é ser menino ou menina/ mulher ou homem, e que não se trata de um determinismo genético/biológico apenas. Freud coloca este conceito ao lado de pulsão e libido, que foi progressivamente utilizado para designar uma disposição psíquica inconsciente que é própria de toda subjetividade humana, na medida em que esta se fundamenta na existência da diferença sexual, isto é, baseia-se na necessidade de o sujeito fazer uma escolha sexual, quer através do recalque de um dos dois componentes da sexualidade, quer através da aceitação desses dois componentes, quer, ainda, através de uma renegação da realidade da diferença sexual. (Roudinesco, 1998)

O fato é que, Freud diz que todos passam pelo complexo de Édipo, podendo ter consequências diferentes para cada um, e que a escolha objetal/amorosa tem seus primórdios na infância, a partir de um outro que com seus cuidados (corporais e afeto) oferece a possibilidade de subjetivação. Portanto, a infância ganha destaque nos estudos de Freud, e sai do lugar de “pureza/inocência” para o que faz escolhas também (conscientes e inconscientes).

A arte como forma de expressão da subjetividade, também explora muito este tema (sexualidade infantil/identidade/gênero), principalmente o cinema, que muitas vezes o traz de maneira estereotipada, generalizando as condutas, comportamentos e a subjetividade por trás disso tudo. Mas há aqueles que buscam outras formas de abordar o assunto, como no caso do sensível filme “Tomboy” (2011) dirigido por Celine Sciamma.

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Neste, conta-se a história de Laure (Zoé Héran) uma garota de 10 anos, que vive com os pais e a irmã caçula, Jeanne (Malonn Lévana). A família se mudou há pouco tempo e, com isso, não conhece os vizinhos. Um dia Laure resolve ir à rua e conhece Lisa (Jeanne Disson), que a confunde com um menino. Laure, que usa cabelo curto e gosta de vestir roupas masculinas, aceita a confusão e lhe diz que seu nome é Mickaël.

Há quem diga que Laure passou a levar uma vida dupla, pois escondia de seus pais o Mickael que havia dentro dela. Neste caso, discordo, pois Laure o tempo todo age de acordo com suas vontades, sem sofrer repressão por parte dos pais, permitindo que ela fosse do jeito que quisesse. Até o ponto em que o nome (Mickael) é descoberto, o que torna algo insuportável para a mãe, que muda a postura e obriga Laure a revelar sua identidade aos vizinhos.

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Tudo isso torna-se bastante angustiante para quem assiste, pois o espectador reconhece em Laure uma legitimidade em suas atitudes e escolhas. Tomboy , termo este que significa meninas que tem hábitos e características de meninos, traz a tona o quão complexa a constituição subjetiva pode ser. Além disso, põe à prova a questão do determinismo biológico nas escolhas objetais, nesta fase de mudanças e escolhas que é a infância.

Algumas cenas no filme chamam bastante atenção, como quando Laure olha-se no espelho e algo a incomoda, algo falta, até que decide criar seu próprio pênis com massinha de modelar. Isto permite fazer uma articulação com o livro de Freud “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade” de 1905, onde na segunda parte ele elucida sobre o complexo de castração, da ideia da inveja do pênis e, por ultimo, da gênese da noção de estádio (oral, anal, fálico e genital). O componente central da organização da sexualidade infantil continua a ser o que Freud denomina de “disposição perverso-polimorfa”.

O que fica evidente a partir da articulação entre a teoria da sexualidade e o filme Tomboy, é que quando se fala em subjetividade, nada é tão rígido ou pronto em relação a sexualidade. Prova disso, são as pulsões, que são parciais, ou seja, elas têm um objetivo que nunca é prontamente alcançado, sempre aparecendo outro. O desejo é isso, incessante, busca algo sempre. Laure expressava seus desejos a partir das escolhas objetais que vinha fazendo, o que não deixa de ser tudo uma descoberta para uma garota de 10 anos, e que, posteriormente, todo este movimento poderia (ou não) mudar para outros caminhos e possibilidades.

REFERENCIAS

ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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