Mal entendido

Tarde de sol, no parque da cidade. Um jovem casal conversa. Dois antigos amigos sentados na grama, aproveitando o fim de tarde. Numa conversa banal, Julia conta um pouco sobre suas expectativas ao amigo, Lauro.

– Então é mais ou menos assim: vou atrás dos meus objetivos, faço de tudo para alcançar minhas metas pessoais, tento manter o foco nessas coisas sabe, que sei que farão a diferença em minha vida. Mas, chega um momento, e percebo que isso não basta!

– Como assim não basta Julia? – pergunta Lauro. O que mais você quer?

– Ah Laurinho! Quero mais, viver mais, aprender mais… tá bom, confesso: Amar mais!

– Claro, vocês mulheres querem sempre amar, mais e mais! Já não basta os fracassos amorosos que você já teve, Julia? Não cansou ainda? Me poupe…

– Não entendi agora, fracassos? Como assim fracassos?

– Ah, seus relacionamentos que não deram certo né Julia… sofrimento atrás de sofrimento. Lembra do Paulo? Que depois de 7 meses te encontrou na balada com a “prima”! E o Mateus? Disse que você era a mulher da vida dele, e no dia seguinte foi fazer um intercâmbio na Turquia! Quer que eu lembre mais?

– Nossa, que ridículo que você é! Mas espera, você não acha que tá sabendo demais da minha vida não?! Não lembro de ter te contado essas coisas! E outra, se é pra falar em fracassos, começo já a listar os seus aqui. Lembra da Leticia? Namorou 1 ano com você, disse que era virgem e inocente e depois ela que te ensinou umas coisas apimentadas! hahaha E Patrícia? Colocou tanto chi…

Irritado, Lauro corta Julia.

– Peraí né Julia, não precisa refrescar minha memória, não sofro de nenhum distúrbio pra ter esquecido minhas aventuras amorosas!

– hahaha aventuras amorosas? No máximo você teve um passeio amoroso, com algumas meninas que não devem lembrar nem seu sobrenome!

– Por que você me ataca assim? Pergunta Lauro indignado.

– Eu? Quem começou foi você, apenas estou retribuindo sua provocação querido…

– Ahhh, adoro quando me chama de querido…chama de novo!!

– Me poupe Lauro, sente o tom! Não foi um querido meigo, foi meio irônico!

– Sabe, penso que no fim das contas estamos eu e você sozinhos, esperando pela metade da laranja, acho que talvez seria interessante unirmos forças…

– Ai que ridiculo, metade das laranjas! Como assim? Você por acaso quer ficar comigo?

– Não Julia, unirmos forças no sentido de apresentarmos amigos um ao outro! Você pensou o que?

– Ah nada não, não pensei nada! Disse Julia envergonhada …

Silêncio.

Silêncio.

Um suspiro de Julia.

Uma tosse seca de Lauro.

Silêncio.

Troca de olhares.

Sorrisos.

Gargalhadas.

Abraço de despedida.

Decidiram ficar no mal entendido.

Encontro com analista – Parte II

Toc, toc toc…

Dr. Paul abre a porta, com um certo espanto.

– Sabe Dr. Paul, resolvi voltar porque … porque… pela primeira vez não senti que me tratavam como criança. Posso ter sido até grosseira naquele dia, mas o senhor não tentou me agradar…e aquilo mexeu comigo…

– O que você sentiu? Ele pergunta.

– Na hora fiquei com raiva, me senti expulsa daqui! Acho que no fundo, depois de tudo aquilo que eu disse, esperava que o senhor tentasse me fazer mudar de ideia, e me fizesse ficar, e o senhor não o fez…Já vi que tem algo de diferente nesse tratamento, e, fiquei com vontade de voltar…

– É Luise, esse “tratamento” realmente difere um pouco dos outros, sabe, aqui nós só temos uma regra.

– É mesmo? Qual? Pergunta Luise curiosa.

– A única regra aqui é que você fale o que lhe vier a mente, sem medo de julgamentos, sem uma fala pronta. Você pode chegar aqui e falar do que quiser, que estarei pronto para ouvir e intervir em determinados momentos.

– Bom, falar não é problema pra mim (risos) o difícil vai ser achar que não estou sendo julgada por você!

– Por que você acha isso?

– Porque as pessoas tem a tendência natural de julgar umas as outras… Pelo menos quando converso com alguém mais velho sinto isso! Não me sinto a vontade para contar TUDO o que acho de verdade…

– Com quem você costuma conversar?

– Meu pai, umas tias minhas… e muito pouco com minha mãe…é, muito pouco com ela…

Luise espera uma fala de Dr. Paul.

Silêncio no consultório.  Respiração ofegante. Aperto no peito. Ardência nos olhos. Lágrimas descem…um lenço para Luise.

—————————

Que encontro! Foi quase um desencontro! Tudo começa atropelado, Luise despeja toda sua agressividade em Dr, Paul, e o que ele faz? Não responde a demanda da analisanda. Não se coloca no lugar de mãe, pai, nem amigo, mas sim, no lugar de analista. E aquilo gera o espanto para Luise. Engraçado que o espanto não ocorre na análise, mas sim fora dela. Lembremos: Quando a professora abre a porta para ela entrar, aquela cena remete a outra em que seu analista abre para ela sair, o que deu a impressão de que estava sendo expulsa. Mas, claro, veja só como Luise fantasia! Dr. Paul abriu a porta para ela, pois ela estava realmente de saída e muito irritada…

O espanto gerado em Luise, a faz voltar ao consultório do psicanalista.

A regra fundamental de uma análise citada por Dr. Paul, é nada mais, nada menos que a associação livre! Isso mesmo, associar livremente os pensamentos. Nossa, que besteira, o leitor deve pensar. Falar o que vem a mente parece uma regra tão simples, que nem deveria ser regra! Ok, parece simples, acontece que no processo analítico estão em jogo outras questões, que favorecem, ou não, a associação livre, e a mais importante considera-se a transferência, mola propulsora da análise.

No primeiro encontro de Luise e Dr. Paul, tivemos uma amostra do que pode ser a transferencia negativa, que dificulta o andar de uma análise, no entanto, cabe ao analista tentar mudar a situação e transformá-la em transferencia positiva. Transferência em psicanálise trata-se do amor/ódio (afetos) no processo analítico.

No final, Luise toca em um ponto crucial de seu sintoma. O choro veio como resposta do sujeito de seu inconsciente. Nem sempre as palavras são as melhores respostas!

Fico por aqui, tentei tornar o assunto um pouco mais interessante através do encontro entre os personagens Luise e Dr. Paul, espero não ter confundido mais vocês rs! Criticas são bem vindas aqui….

Grande abraço!

M.A.

Encontro com analista – Parte I

Boa noite! Já falei tanto do processo analítico em meu blog (mais ainda no antigo blog) que resolvi fazer um recorte fictício de um encontro com um analista! Para quem ainda nunca foi ao analista, aproveite e fantasie ainda mais sobre esse encontro, para quem já foi, identifique-se com algumas passagens da crônica a seguir…

Boa leitura!

———————————-

Eis que a campainha toca. Um senhor baixo, cabelos grisalhos, óculos ligeiramente inclinados no nariz, abre a porta, e, com um gesto convidativo, recebe a jovem Luise. Ela, desconfiada, adentra aquela sala pouco iluminada, temperatura agradável, decoração um tanto quanto interessante e… o temido divã.

Para sua surpresa, o senhor não a convida para o divã, mas sim para uma das poltronas presentes na sala. Duas poltronas extremamente confortáveis, uma inclinada para um dos lados da sala e a outra de frente. Luise senta-se na que está de frente, ainda desconfiada, sem saber muito bem como proceder. O senhor, gentilmente, a pergunta o motivo de sua presença.

A partir desse momento, milhões de coisas passam por sua mente. Deveria começar contando sobre a briga que teve com sua irmã semana passada? Ou então, sobre o fato de ter um namorado tão incompreensível? Ou até mesmo sobre o quanto ela se questionava se deveria estar ali mesmo!

Notando a confusão mental de Luise, Dr. Paul, inclina-se na poltrona, e diz:

– Diga  aquilo que primeiro veio em sua mente…

– Nossa! – pensou Luise – pensei tantas coisas que nem sei mais a primeira coisa que me veio a mente! – Sabe Dr, nem sei porque estou aqui, na verdade, acho que quem deveria estar sentada nesta poltrona era minha mãe!

Dr. Paul indaga: – Você acha isso? Por que?

– Porque quem tem sérios problemas é ela, ela nunca me entende, e acha que o senhor poderá me ajudar!

– E o que VOCÊ acha?

– O senhor não escutou? Eu não tenho problemas, quem tem é ela… Sabe de uma coisa, preciso ir, acho que estou perdendo meu tempo aqui. Quanto foi a sessão?

Dr. Paul, num gesto que surpreende Luise, levanta-se e abre a porta rapidamente:

– Não se preocupe com o pagamento jovem.

Luise, ainda surpresa com o gesto do analista, se levanta devagar, fita-o ligeiramente e sai do consultório meio confusa com tudo aquilo que disse.

Chegando em casa, vai direto para o quarto, liga o computador, e tenta se distrair. Tudo em vão, seus pensamentos retornavam àquele encontro confuso com o analista.

– Mas que coisa, não consigo entender o que fui fazer ali! Aquele homem não pode me ajudar em nada, ele iria me deixar mais confusa, com certeza! Quem ele pensa que é, para pedir para falar dos pensamentos que passam em minha cabeça? Fui só fui perder meu tempo lá!

No dia seguinte, Luise estava preparando-se para ir a aula de francês, e pediu que sua mãe a deixasse no curso. A mãe, que por sua vez estava atrasada para o trabalho, não deixou de atender ao pedido da filha, pois sabia que Luise não aceitava pegar carona ou andar algumas quadras. A senhora Marie sabia a filha que tinha, mimada desde sempre! E preferia obedecer as demandas de Luise.

Quando chegou ao curso, a professora abriu a porta da sala convidando Luise a entrar, e por algum motivo, ela lembrou do analista abrindo a porta do consultório para ela, porém, não convidando, mas expulsando. Pois foi a sensação que ela teve no final do encontro.

Aquilo lhe gerou um certo desconforto, e pela primeira vez, Luise pensou em algo inusitado, que talvez a faria voltar ao consultório daquele “velho curioso”, como ela o apelidou.

——————————-

Pensem um pouco neste encontro, e no próximo post, continuarei a narrativa, e no final farei algumas observações.

Au revoir!

M.A.