Polanski: O ato em cena

Risadas discretas , espanto, horror, gargalhadas, desconforto. De repente, a sala de cinema divide-se em diversos tipos de reações, gerando certa confusão a quem assiste ao mais novo filme do polêmico diretor Roman Polanski. Estamos acostumados a geralmente compartilhar do mesmo sentimento ao assistir um filme no cinema, se é comédia, que venham as risadas, se for drama, que caiam as lágrimas e assim por diante.  Mais que viajar na estória do telão, queremos compartilhar sentimentos e reações. Continuar a ler

Um conto chinês

Aproveitar o tempo!

Mas o que é o tempo, para que eu o aproveite?

[…]

Aproveitar o tempo!

Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.

Aproveitei-os ou não?

Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

Álvaro de Campos

 

Eis que o cinema argentino tem alcançado cada vez mais um lugar de destaque nas críticas, mais que isso, a visibilidade conquistada reflete a delicadeza com que temas banais, do cotidiano, são tratados pelos diretores. Imaginem juntar um argentino e um chinês, duas culturas díspares e línguas que em nada se assemelham. Isso tudo mais o humor seco do argentino e os atropelamentos ansiosos do chinês. Bom, podemos pensar: Não vai funcionar! Para os personagens a princípio não, em contrapartida, os expectadores ganham uma comédia peculiar e um tanto quanto reflexiva.

Confesso que atualmente ando meio sem paciência para os filmes hollywoodianos e suas grandes produções, sempre (ou quase sempre) saio do cinema com a sensação de que nada posso fazer com  todo aquele conteúdo absorvido em pelo menos 3 horas de filme (sim, 3 horas!)  e que em 3 dias será esquecido: Eu já vi esse filme?! Felizmente, a memória é seletiva e esperta o bastante para nos fazer esquecer algumas coisas …

Voltando ao filme e seu conteúdo aparentemente banal, muitos questionamentos saltam à mente diante da postura dos personagens, que despertam vez ou outra sentimentos dos mais diversos, por vários motivos. Seja pelo mau humor do argentino para com sua vida e as pessoas que o rodeiam ou mesmo o jeito perdido do chinês, que cai de para-quedas na vida do outro (assim como a vaca na primeira cena do filme), demandando coisas do argentino das quais ele sempre havia fugido: “dedicar-se” a outrem.

 

Um fato inesperado, uma vaca que cai do céu, literalmente, muda o percurso de duas vidas, que aparentemente, estavam destinadas a repetição. E é neste ponto, que o filme me chama atenção. Quantas vezes nos pegamos completamente mergulhados em rotinas que nada mais são que meras repetições de ações e pensamentos dos quais nos geram conforto e acomodação? O argentino estava “feliz” com sua vida pacata, solitária e alimentada por notícias trágicas do mundo através dos recortes de jornal, até o momento em que uma das noticias recortadas seria aquela que o afetaria diretamente.

Somos afetados todos os dias por diversas coisas, pessoas e situações ao nosso redor, o que nos diferencia é que uns estão mais “anestesiados” que outros a estas interferências, ou seja, uns se deixam afetar mais que outros. Há quem diga que isso é uma questão da cultura pós-moderna, o individualismo está presente nos diversos contextos, até mesmo nas famílias. As pessoas tem conseguido transformar situações graves em questões banais. A banalização é um mal do nosso tempo. A questão é o que você faz com isso. Fechar os olhos, fingir não ver, ignorar, são algumas atitudes, assim como deixar-se sensibilizar, pode ser outra.Contudo, tudo são escolhas. O argentino poderia ter evitado toda “bagunça” em sua vida se ignorasse o fato de um chinês ter aparecido por acaso. Maldito acaso, pensou ele.

Mas saibam, que, tem momentos em que a vida parece nos testar, são coisas tão absurdas que nos acometem que as vezes é mesmo difícil de acreditar. A morte é um grande exemplo do quanto que a sensação de que temos controle sobre nossas vidas é mera fantasia/ilusão. No caso do filme, foi preciso uma vaca cair do céu para que uma nova perspectiva sobre a vida gerasse mudanças. Imaginem o quão “anestesiado” este homem deveria estar…

E você, já viu alguma vaca cair do céu hoje?

Luxo ou liberdade?

Os amigos mais próximos sabem da paixão que eu tinha (tenho ainda) por Paris sem nem ao menos ter colocado um pé na cidade Luz. O fato é que em março deste ano realizei tal façanha.
Fui mais além, me encantei por outros tantos lugares: Versalhes, Roma, Londres, Amsterdam, Bruxelas… continuam vivos em minha memória como tinta fresca na parede.
Por algum motivo, tive uma enorme resistência em expor as experiências em cada lugar deste. Acho que antes de compartilhar aqui, eu queria ter a lembrança só pra mim e desfrutar disso, sendo meio egoísta, quem sabe.
Lendo uma crônica da psicanalista Maria Rita Kehl, pude voltar as lembranças da cidade luz e ainda concordar em cada palavra sobre a crítica que esta faz quanto a violência a qual nos acostumamos a considerar luxo, e esquecemos que viver em uma sociedade em que as pessoas podem andar nas ruas sem medo é… básico.

Segue abaixo a crônica da psicanalista Maria Rita Kehl.

Você tem medo de quê?

Por Maria Rita Kehl

 

Vou direto ao ponto: estive em Paris. Está dito e precisava ser dito, logo verão por quê. Mas é difícil escapar à impressão de pedantismo ou de exibicionismo, ao dizer isto. Culpa da nossa velha francofilia (já um tanto fora de moda). Ou do complexo de eternos colonizados diante dos países de primeiro mundo. Alguns significantes, como Nova Iorque ou Paris, produzem fascínio instantâneo. Se eu disser “fui a Paris”, o interlocutor responderá sempre: “que luxo!”. E se contar: “fui assaltada em Paris”, ou “fui atropelada em Paris”, é bem provável que escute: “mas que luxo, ser assaltada (atropelada) em Paris!”
O pior é que é verdade. É um verdadeiro luxo, Paris. Não por causa do Louvre, da Place Vêndome ou dos Champs Élisées. Nem pelas mercadorias todas, lindas, chiques, caras, que nem penso em trazer para casa. Meu luxo é andar nas ruas, a qualquer hora da noite ou do dia, sozinha ou acompanhada, a pé, de ônibus ou de metrô (nunca de táxi) e não sentir medo de nada. Melhor: de ninguém. Meu luxo é enfrentar sem medo o corpo a corpo com a cidade, com a multidão.
O artigo de luxo que eu traria de Paris para a vida no Brasil, se eu pudesse – artigo que não se globalizou, ao contrário, a cada dia fica mais raro e caro – seria este. O luxo de viver sem medo. Sem medo de que? De doenças? Da velhice? Da morte, da solidão? Não, estes medos fazem parte da condição humana. Pertencemos a esta espécie desnaturada, a única que sabe de antemão que o coroamento da vida consiste na decadência física, na perda progressiva dos companheiros de geração e, para coroar tudo, na morte. Do medo deste previsível grand finale não se escapa.
O luxo de viver sem medo a que me refiro é bem outro. O de circular na cidade sem temer o semelhante, sem que o fantasma de um encontro violento esteja sempre presente. Não escrevi “viver numa sociedade sem violência”, já que a violência é parte integrante da vida social. Basta que a expectativa da violência não predomine sobre todas as outras. Que a preocupação com a “segurança” (que no Brasil de hoje se traduz nas mais variadas formas de isolamento) não seja o critério principal para definir a qualidade da vida urbana.
Não vale dizer que fora do socialismo este problema não tem solução. Há mais conformismo do que parece em apostar todas as fichas da política na utopia. Enquanto a sociedade ideal não vem, estaremos condenados a viver tão mal como vivemos todos por aqui? Temos que nos conformar com a sociabilidade do medo?
Mas eu conheço, eu vivi numa cidade diferente desta em que vivo hoje. Esta cidade era São Paulo. Já fiz longas caminhadas a pé pelo centro, de madrugada. Namorando, conversando com amigos, pelo prazer despreocupado da flânerie. A passagem do ano de 1981 para 82 está viva na minha lembrança. Uma amiga pernambucana quis conhecer a “esquina de Sampa”. Fomos, num grupo de quatro pessoas, até a Ipiranga com a São João. Dali nos empolgamos e seguimos pelo centro velho. Mendigos na rua não causavam medo. Do Paysandu (o Ponto Chic estava aberto, claro!) seguimos pelo Arouche, República, São Luis, Municipal, Patriarca, Sé; o dia primeiro nasceu no Largo São Bento.
Não escrevo movida pelo saudosismo, mas pela esperança. Isso faz tão pouco tempo! Sei lá como os franceses conseguiram preservar seu raro luxo urbano. Talvez o valor do espaço público, entre eles, não tenha sido superado pelo dos privilégios privados. Talvez a lei se proponha, de fato, a valer para todos. Pode ser que a justiça funcione melhor. E que a sociedade não abra mão da aposta nos direitos. Pode ser que a violência necessária se exerça, prioritariamente, no campo da política, e não da criminalidade.
Se for assim, acabo de mudar de idéia. Viver sem medo não é, não pode ser um luxo. É básico; é o grau zero da vida em sociedade. Viver com medo é que é uma grande humilhação.

Inspiração

Retomando as atividades!

Tirei umas férias do blog também, estava precisando!

Voltei mais exigente e crítica comigo mesma, principalmente depois de uma conversa com uma pessoa mais que especial: meu avô! Fico pensando… como eles ensinam a gente! Conseguem transmitir verdades incontestáveis apenas com o brilho do olhar. Já passaram por tantas coisas na vida que tentam até nos poupar de algumas, mas percebem que assim como eles, teremos que enfrentar tudo, momentos bons e ruins, assim como eles o fizeram, para chegarem ao que são hoje.

Enquanto as palavras saíam carregadas de afeto em direção aos meus ouvidos, aos poucos outros foram se aproximando e investindo atenção ao que era dito. Conversa esta que começou com uma crítica ao livro que eu estava lendo, isso mesmo, ele encontrou um erro gramatical no livro. Após isto, tudo se desenrolou a outras temas, até mais pessoais, e foi aí que ficou bom!

Parece besta, mas enquanto ele falava meus olhos enchiam de lágrimas, não sei se de orgulho, inspiração ou alegria em ver o quanto ele sabe das coisas, que ele aprendeu não só nos livros (que foram muitos) mas com a vida mesmo. Era uma fala intensa, nostálgica, mas sem idealismos, muito realista. Depois desta conversa, meu pensamento era o seguinte, sonhar é bom, mas melhor ainda é manter um pé na realidade. A vida exige coisas da gente que um sonho por si só não realiza. Vejo o quanto as pessoas dizem que sonhar é o começo de tudo, e não tiro a razão de quem fala isso, mas afirmo, sonhar não é tudo! O percurso que se faz até chegar a concretização dele é o que realmente importa, porque como já sabemos, os sonhos não cessam, depois de um, sempre virá outro, outro e mais outro.

Linda dança da vida.

Por fim, as férias foram doces como o doce-de-leite de minas, macias como um pão de queijo quentinho e alegres como as conversas na casa dos avós…tá bom pra vocês? 🙂

Depois desse sonho de férias, de volta a realidade, que não é nada mau também!

Beijos

Buenos Aires: Impressões

Ahh, viajar… respirar novos ares, conhecer outra cultura, vivenciar novas experiências, falar outra língua, trocar conhecimentos…São alguns dos benefícios que se tem ao visitar outro país. Tive a chance de experimentar isso tudo semana passada na tão bela CABA (Ciudad Autonoma de Buenos Aires).

Logo ao chegar, milhões de impressões invadiram meus pensamentos. Ao sair do Aeroparque, em direção ao hotel, onde eu ficaria hospedada esses poucos dias (5 dias), já fui tirando fotos dentro do taxi! Logo pude contemplar o rio La Plata, que fica ao lado do aeroporto. Fui tirando foto de coisas que me chamaram atenção e que com certeza fariam parte do panorama que eu estava por construir de Buenos Aires. Estas foram as primeiras fotos que tirei ao chegar, já denunciando os contrastes que esta cidade possui, e que nós brasileiros sabemos bem o que é isso.

Nem tudo é só glamour…

Mais adiante, paisagens mais convidativas foram surgindo e a vontade de pular fora do taxi para ver tudo de mais perto me invadiu, aí veio aquela sensação agradável, de que muita coisa boa estava por vir. Encarnei o papel da turista mais curiosa.

Mas, antes de encarnar tal papel, eu ainda estava mais atenta com a apresentação que faria do meu trabalho no Congresso Internacional de Acompanhamento Terapêutico, já neste primeiro dia! Portanto, foi chegar no hotel, encontrar amigos, sair para almoçar e apresentar o trabalho.

Apresentei o trabalho sob o título “O não saber na formação e prática do Acompanhamento Terapêutico sob o viés da Psicanálise Lacaniana”. A mesa estava composta por outros profissionais da área, que também apresentaram seus trabalhos. Adorei poder apresentar este trabalho, não sei se tive sorte com as pessoas que assistiam, mas senti uma receptividade muito boa.

Buenos Aires é mais ou menos assim, te conquista pela arquitetura, pelas fachadas dos prédios, pelo estilo clássico, pelo tango tão explorado nos quatro cantos da cidade, pelo clima agradável, com céu azul, sol e brisa levemente gelada! O que propicia durante o dia a experimentar cervejas locais e a noite um bom vinho! Sem falar que não dá para evitar exageros em relação a duas coisas: as famosas empanadas e o alfajor!!! Comi tudo com a promessa de que ao chegar em SP me mudaria para academia! rsrsrs

Andei de taxi e metrô pela cidade, mas pelo metrô pude ter maior acesso a realidade deste lugar. O metrô deixou muito a desejar, muita sujeira, parecia que uma reforma ali nunca fora cogitada antes. Uma pena, algumas coisas pareciam tão largadas que em determinados momentos São Paulo não parecia mais um lugar tão ruim para se viver. A moeda local (peso argentino) está em desvantagem ao Real, no entanto, eles não aceitam em todos lugares, o dolar e o euro são, claro, muito bem vindos.

A música e a dança estão por todos os lados, artistas e músicos invadem a cidade e contagiam os turistas com suas melodias e e sensualidade na dança. O tango é sim um dos principais atrativos e eles demonstram muita paixão nisso.

Um passeio que recomendo é a visita ao Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires – MALBA que possui um acervo permanente de obras incríveis. É possível deixar-se hipnotizar pelas obras de Tarsila do Amaral, Diego Rivera, Frida Kahlo, Botero, etc. Destaco aqui a Abaporu (1928) de Tarsila do Amaral que chama atenção por suas cores vibrantes e forma exótica. Bem que eu gostaria que esta obra estivesse no Brasil…http://globalizar.wordpress.com/2011/09/01/malba-nega-venda-de-abaporu-ao-brasil/

MALBA

As livrarias são pontos fortes também de BA, El Ateneo contempla diversas obras e um espaço para café muito aconchegante. Vale a pena ir também. E claro, no ultimo dia que tive na cidade decidi bater perna na feira de San Telmo! Lá é o resumo de tudo que Buenos Aires oferece, bares, empandas, tango, arte, galerias, móveis restaurados, cerveja Quilmes, artistas de rua. De lá fui para a Florida (uma 25 de março melhorada) onde lojistas e camelôs dividem o espaço de uma rua comprida!

Cultura diferente, dona de monumentos fálicos (obelisco, p. ex.) que contempla uma mistura de ritmos musicais, com um povo patriota, que espelha-se em Eva Peron e Maradona e não perde o tom forte e duro na fala, que assusta um tanto no começo, mas depois percebe-se que é um jeito de se expressar, nada mais. Volto pra casa com saudade dos amigos que fiz e das tentativas engraçadas de falar castelhano…e com vontade de aprender mais!

Até a próxima!

Mariana Anconi

Para além do respeito

Maturidade. Atingir um estado de maturação quando se fala numa fruta, por exemplo, é muito simples, basta perceber sua cor, textura, cheiro, formato, tamanho, etc. E com as pessoas? Devo considerar uma pessoa com maturidade devido apenas sua idade cronológica, aspecto físico, experiência de vida?

A vida tem me mostrado que não.

Já vi homens de 15 anos e meninos de 40. Não pensem que as mulheres estão alheias a isso.

Limites são importantes, as regras delineiam os desejos e impulsos mais primitivos. Além do que, nos constituem enquanto sujeitos da sociedade. O certo e o errado podem muitas vezes estar ligados a cultura, educação e modo de ver de uma pessoa. Logo, não generalizar é um bom começo. O que é certo pra mim, não necessariamente será para você. Isso mesmo, ninguém é obrigado a ser que nem você, pensar igual ou mesmo ter atitudes iguais.

Diferenças… como elas atrapalham, mas como elas também ensinam. O diferente incomoda, angustia, gera atrito, conflitos internos e externos. Alguns não estão preparados para lidar com a disparidade, que nos tira de uma zona de conforto e nos coloca num estado de tensão. Ai como é difícil aceitar comportamentos diferentes dos nossos! Mas, será se são tão diferentes assim?

Será se estes já pensaram no quanto que seus julgamentos podem afetar a si mesmos? Ou já pensaram que atacar o outro é uma forma de não saber lidar com sua próprias questões, dificuldades e preconceitos? Ou mesmo que eles não aceitam que no fundo, no fundo, são iguais aos que julgaram, só não querem aceitar?

Não será muito mais fácil julgar à minha maneira aquilo que eu não suporto e desconsiderar as razões do outro? Ah sim meus amigos, isso é mais fácil, mas será o mais correto? Julgo, opino, condeno aquilo que me atinge, e por isso estou sempre com a razão. Alguns pensam assim. Nos casos mais extremos temos a intolerância nas ruas, contra negros, índios, homossexuais. Realidade ainda cruel, mas realidade. Um país que ainda não sabe o real significado da palavra RESPEITO. Mas o  que adianta falar do país se nossas diferenças não são respeitadas dentro da nossa própria casa?

Ponto limite. Ponto de basta. Que liberdade é essa? Já não sei mais o que é isso…

Passado presente

*Para ler escutando: Le Moulin – Yann Tiersen

Pessoas. O bem mais precioso que temos na vida. Olho para trás e as lembranças invadem minha mente. Lembranças de pessoas que conviviam comigo, e que, hoje estão distantes, não só fisicamente. Memórias lacônicas outras nem tanto.

O que faz com que em determinados momentos voltemos ao passado para reviver? Lembranças que renovam, que atualizam amores, pessoas, espaços, amigos, parentes, objetos, tudo. O que dizer do que já foi quando o que virá ainda é promessa? Desejamos o futuro, enquanto o presente se transforma no passado em segundos.

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Uma carta. Guardada há tempos, mas que renova o espírito jovem de quem um dia amou e foi correspondido. Palavras escritas a mão, a tinta que borra e deixa marcas. A frase que transborda a emoção de quem remete suas impressões. Detalhes de tempo, espaço e conteúdo no canto da folha. O rigor da escrita de quem um dia desejou o destinatário em questão. Verdades expressas em letra cursiva, desenhando sentimentos de idealização e realização. O duplo sentido gerando novas possibilidades. A esperança renovada a cada linha, cada vírgula, ponto de exclamação. Dúvidas expostas num vocabulário contido em seus excessos. A singularidade de quem escreve e exporta sua subjetividade a outrem distante, igualmente esperançoso.

Uma foto. Uma vida esquecida, mas que em segundos volta a mente num turbilhão de lembranças que trazem á tona sentimentos já conhecidos, já vividos. Prazerosos ou não. Retornam. No embalo da nostalgia, outras fotos aparecem, sem pudor, sem pedir licença, compondo um quadro frente aos olhos. Quase um filme já visto pelo expectador.

Um perfume. O cheiro que um dia esteve presente, sonhado no futuro e atualmente no passado. Devaneios ocasionados pela essência e fragrância de quem passou e agora voltou no fantasma da imaginação. Mas tão real, igual outrora. Perfume que não se encontra nas lojas, mas quem sabe, nas mentes mais saudosas.

Memória que aquece, que nos transporta para outro lugar e época. Dá novos sentidos as questões atuais. O passado que se atualiza no futuro, de maneira extraordinária. Fragmentos de declarações, frases de efeito, palavras ao vento, lembranças de uma vida que não volta. Como dizia o mestre “recordar, repetir e elaborar”.

Recordo para viver, repito para gozar e elaboro para seguir.

M.A.