As depressões na atualidade: O “blues” que ninguém quer saber

Olá pessoal, hoje postarei um texto que aborda um tema importante e atual. São muitas dúvidas a respeito deste tipo de diagnóstico, mas uma coisa fica clara, diante de tanta complexidade e confusão de discursos (médico, psicológico, etc), nossa sociedade atual não dá lugar mais a tristeza. É, a tristeza inerente a vida, que indica que estamos vivos e reagimos a determinadas coisas, assim também como ficamos felizes em outros momentos, não estamos anestesiados as situações da vida.

Boa leitura! Continuar a ler

Movimento lança Manifesto no dia mundial de conscientização do autismo

­­­­­

O Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública lançou seu manifesto hoje nas redes sociais e veículos de comunicação (jornais, blogs, etc). Aproveito e divulgo no blog Le Transfert este documento tão importante, resultado da compilação de ideias de profissionais engajados na defesa da psicanálise como uma das formas de tratamento para o autismo. Continuar a ler

Intervenções do analista com crianças

A propósito do analista, qual é a sua função? E a qual é a função da brincadeira na cena analítica? O analista situado no contexto da análise de crianças permeia por um caminho muito sutil, onde muitas vezes, marcas ainda podem ser inscritas no psiquismo. Contudo, sua função precisa estar muito bem definida para que não caia em armadilhas muito atraentes. Continuar a ler

O brincar na constituição subjetiva*

O brincar enquanto atividade lúdica na infância é visto como algo natural e saudável, é também, um dos gozos máximos da existência. A partir da perspectiva da Psicanálise, o brincar tem demonstrado o quanto que se pode avançar em uma análise com crianças, tendo em vista que se trata de algo estruturante na constituição subjetiva, o que possibilita reflexões acerca da construção da fantasia e a maneira como isso opera na representação lúdica. Continuar a ler

Movimentar é preciso

Diante dos últimos fatos ocorridos no circuito psicanálise e saúde pública, senti-me convocada a exercer a escrita mais uma vez, numa tentativa (quem sabe) de elaborar tudo que foi absorvido durante o evento que ocorreu na Universidade de São Paulo, este final de semana (22, 23 e 24 de março de 2013), reunindo mais de 200 psicanalistas engajados no trabalho clínico com pessoas com autismo.

Tais fatos ocorridos, mencionados acima, referem-se as demissões em massa que vêm ocorrendo descaradamente nos serviços de saúde pública do estado de São Paulo. A saber, o último que tivemos notícia foi no CAPS Itapeva (diga-se de passagem, primeiro CAPS do Brasil) que tem em sua equipe multidisciplinar psiquiatras, psicólogos, psicanalistas, etc. E anterior a isso, o “quase” fechamento do CRIA (Centro de Referência da Infância e Adolescência) vinculado a UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), sob a justificativa de que tal instituição não adotava métodos científicos em seus tratamentos, instituição esta composta por uma equipe com orientação teórica em psicanálise.

O fato é que, o clima de ameaça instalou-se entre os profissionais que utilizam-se da metodologia psicanalítica em suas práticas, e de repetente, me vejo de volta ao início do século XX, onde outras metodologias da saúde decidem extinguir e pulverizar a peste (lê-se psicanálise). Façamos uma pergunta: O que é ciência? Sim, me pergunto, porque se uma metodologia que está presente nas pesquisas financiadas por grandes universidades do país, que apresenta respostas e avanços nos tratamentos, que baseia-se em dados clínicos, não for uma ciência, o que mais pode ser? O que estamos fazendo nas universidades, pesquisando e publicando artigos CIENTÍFICOS? Nada?

Após todos esse acontecimentos, profissionais psicanalistas que atendem pessoas com autismo (médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, etc) tocados pelos absurdos na saúde pública reuniram-se no intuito de pensar e organizar um movimento que, mais do que tudo, defende a ideia da diversidade de metodologias e práticas na ciência. Mais ainda, defende o direito que os pais, por exemplo, tem em escolher o tipo de tratamento para seus filhos. Isso, claro, sem ser através um discurso persecutório, ou de denuncia de outras práticas, mas sim, um discurso que visa divulgarmos cada vez mais nosso trabalho (me incluo neste movimento) quebrando ideias e preconceitos desenvolvidos erroneamente, talvez por uma má interpretação teórica (pagamos caro por isso).

482170_629962573685747_1019132285_n

Outro ponto importante ao qual o movimento está a favor, trata-se da possibilidade de diálogo entre ciências, diante de um diagnóstico. Em relação ao autismo por exemplo, não defende-se a ideia de que seja uma causa unicamente psíquica, mas que há também uma base orgânica envolvida. Em resumo, não se trata de radicalismos ou exclusão das outras ciências, o que reivindica-se aqui, é o diálogo aberto entre profissionais, numa proposta de equipe interdisciplinar, onde  há a construção de novos saberes nas fronteiras. Isso é olhar mais para o paciente, e menos para o próprio umbigo.

Como diz o nome (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública) é mesmo para movimentar, dar voz aos profissionais que defendem um trabalho com ética e na ética da psicanálise: a do sujeito. Tudo está sendo construído e pautado no desejo mesmo de cada profissional, desejo este que move para além das barreiras. Momento único este, pois trabalhamos com a escuta, e agora precisamos ser escutados.

Mariana Anconi

Polanski: O ato em cena

Risadas discretas , espanto, horror, gargalhadas, desconforto. De repente, a sala de cinema divide-se em diversos tipos de reações, gerando certa confusão a quem assiste ao mais novo filme do polêmico diretor Roman Polanski. Estamos acostumados a geralmente compartilhar do mesmo sentimento ao assistir um filme no cinema, se é comédia, que venham as risadas, se for drama, que caiam as lágrimas e assim por diante.  Mais que viajar na estória do telão, queremos compartilhar sentimentos e reações. Continuar a ler

Um conto chinês

Aproveitar o tempo!

Mas o que é o tempo, para que eu o aproveite?

[…]

Aproveitar o tempo!

Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.

Aproveitei-os ou não?

Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?

Álvaro de Campos

 

Eis que o cinema argentino tem alcançado cada vez mais um lugar de destaque nas críticas, mais que isso, a visibilidade conquistada reflete a delicadeza com que temas banais, do cotidiano, são tratados pelos diretores. Imaginem juntar um argentino e um chinês, duas culturas díspares e línguas que em nada se assemelham. Isso tudo mais o humor seco do argentino e os atropelamentos ansiosos do chinês. Bom, podemos pensar: Não vai funcionar! Para os personagens a princípio não, em contrapartida, os expectadores ganham uma comédia peculiar e um tanto quanto reflexiva.

Confesso que atualmente ando meio sem paciência para os filmes hollywoodianos e suas grandes produções, sempre (ou quase sempre) saio do cinema com a sensação de que nada posso fazer com  todo aquele conteúdo absorvido em pelo menos 3 horas de filme (sim, 3 horas!)  e que em 3 dias será esquecido: Eu já vi esse filme?! Felizmente, a memória é seletiva e esperta o bastante para nos fazer esquecer algumas coisas …

Voltando ao filme e seu conteúdo aparentemente banal, muitos questionamentos saltam à mente diante da postura dos personagens, que despertam vez ou outra sentimentos dos mais diversos, por vários motivos. Seja pelo mau humor do argentino para com sua vida e as pessoas que o rodeiam ou mesmo o jeito perdido do chinês, que cai de para-quedas na vida do outro (assim como a vaca na primeira cena do filme), demandando coisas do argentino das quais ele sempre havia fugido: “dedicar-se” a outrem.

 

Um fato inesperado, uma vaca que cai do céu, literalmente, muda o percurso de duas vidas, que aparentemente, estavam destinadas a repetição. E é neste ponto, que o filme me chama atenção. Quantas vezes nos pegamos completamente mergulhados em rotinas que nada mais são que meras repetições de ações e pensamentos dos quais nos geram conforto e acomodação? O argentino estava “feliz” com sua vida pacata, solitária e alimentada por notícias trágicas do mundo através dos recortes de jornal, até o momento em que uma das noticias recortadas seria aquela que o afetaria diretamente.

Somos afetados todos os dias por diversas coisas, pessoas e situações ao nosso redor, o que nos diferencia é que uns estão mais “anestesiados” que outros a estas interferências, ou seja, uns se deixam afetar mais que outros. Há quem diga que isso é uma questão da cultura pós-moderna, o individualismo está presente nos diversos contextos, até mesmo nas famílias. As pessoas tem conseguido transformar situações graves em questões banais. A banalização é um mal do nosso tempo. A questão é o que você faz com isso. Fechar os olhos, fingir não ver, ignorar, são algumas atitudes, assim como deixar-se sensibilizar, pode ser outra.Contudo, tudo são escolhas. O argentino poderia ter evitado toda “bagunça” em sua vida se ignorasse o fato de um chinês ter aparecido por acaso. Maldito acaso, pensou ele.

Mas saibam, que, tem momentos em que a vida parece nos testar, são coisas tão absurdas que nos acometem que as vezes é mesmo difícil de acreditar. A morte é um grande exemplo do quanto que a sensação de que temos controle sobre nossas vidas é mera fantasia/ilusão. No caso do filme, foi preciso uma vaca cair do céu para que uma nova perspectiva sobre a vida gerasse mudanças. Imaginem o quão “anestesiado” este homem deveria estar…

E você, já viu alguma vaca cair do céu hoje?